09 de julho de 2026
Saúde

Medicina quer reduzir transfusões sangüíneas

Sabrina Magalhães
| Tempo de leitura: 4 min

A dificuldade que os hemonúcleos têm em manter seus estoques de sangue adequados às necessidades hospitalares tem levado pesquisadores de várias partes do mundo a buscar técnicas que permitam reduzir a necessidade de transfusões em procedimentos cirúrgicos. O problema é considerado extremamente grave nos casos de urgência, em que o paciente não pode esperar.

Recém-chegado de um estágio e um congresso realizados no Canadá, o médico e cirurgião Samir Salmen conta alguns dos avanços que encontrou por lá nessa área. Ele se diz surpreso com as conquistas e arrisca o palpite de que, em alguns anos, as pessoas não morrerão mais por falta de sangue nos serviços de urgência e emergência.

“Nas cirurgias eletivas (agendadas), você consegue conversar com familiares do paciente e pedir que eles reúnam doadores de determinado grupo sangüíneo até o dia da cirurgia. Mas quando um paciente chega ao pronto-socorro com uma artéria perfurada, perdendo umaquantidade enorme de sangue em poucos minutos, você tem que ter essa mesma quantidade de sangue para repor na hora. Por isso, a falta de sangue nas urgências é um drama”, comenta.

Para minimizar esse problema, estudiosos de todo o mundo buscam soluções em duas frentes principais de pesquisa. A primeira trabalha em técnicas que facilitem o controle de sangramentos, diminuindo a necessidade da reposição. A segunda busca alternativas que possam substituir o sangue que hoje tem de ser doado.

Na contenção de hemorragias, uma das conquistas relatadas por Salmen é o uso do medicamento “Fator Recombinante 7 ativado”. Uma pesquisa canadense, da qual participa o brasileiro Sandro Rizoli, mostrou que injeções da substância no local da hemorragia conseguem promover coagulação instantânea.

Segundo o estudo, a aplicação das injeções consegue reduzir significativamente a necessidade de reposição de hemáceas (glóbulos vermelhos) e reduz significativamente também os casos de grandes transfusões (quando são necessárias mais de 20 unidades sangüíneas) em acidentes e portadores de coagulopatias.

Outra novidade, segundo Salmen, é o bisturi harmônico. Ele explica que os bisturis convencionais, mais utilizados hoje no Brasil, cauterizam o local simultaneamente à incisão (corte). Mas esse procedimento emite calor e acaba queimando, sem necessidade, tecidos vizinhos.

“Ao invés de usar calor, o bisturi harmônico forma uma espécie de chiclete, com colágeno, no local da incisão e cauteriza sem danificar outros tecidos. Com esse tipo de bisturi, médicos dos países desenvolvidos estão conseguindo fazer cirurgias de baço, rim, pulmão e fígado praticamente sem sangramentos, o que é fabuloso”, elogia.

Na outra frente de pesquisas, a novidade trazida por Salmen são os filtros processadores, que permitem reaproveitar o sangue do próprio paciente que foi perdido em hemorragias ou intervenções cirúrgicas grandes.

“Quando você tem uma hemorragia, o sangue perdido entra em contato com outros órgãos, outras substâncias ou mesmo a atmosfera e se contamina, por isso, esse sangue normalmente é desprezado. Pesquisadores desenvolveram um sistema de filtros que processam e purificam esse sangue, permitindo que o mesmo seja retransfundido no próprio paciente”, esclarece.

Salmen destaca que boa parte dessas descobertas ocorreu em função da guerra do Iraque. “Muitas descobertas científicas ocorrem em época de guerra, porque é quando a medicina mais precisa de recursos. Além disso, os países desenvolvidos têm muitos adeptos de religiões em que as transfusões de sangue não são aceitas e eles travam uma luta constante pela racionalização e redução de custos”, argumenta.

____________________

Questão de acesso

Para médica Telma Cristina de Freitas, responsável pelo Hemonúcleo de Bauru, as descobertas científicas que prometem reduzir as transfusões sangüíneas esbarram numa questão fundamental: acesso. Ela lembra que existe todo um protocolo a ser seguido, por exemplo, para se incluir um procedimento novo na tabela do Sistema Único de Saúde (SUS).

“E o custo é um problema. Tanto os medicamentos quanto os equipamentos são caríssimos, necessitam de kits especiais, geralmente importados e caros também. Então, apesar de serem técnicas extremamente atraentes no sentido de diminuir o consumo de sangue intra-operatório, são procedimentos que vão demorar muito para tornarem- se habituais nos hospitais”, lamenta.

Além disso, segundo ela, antes de importar novas técnicas, o Brasil precisa investir muito em estrutura hospitalar e equipes médicas. “Não adianta ter a técnica, se o paciente chega ao pronto-socorro e não encontra vaga. Precisamos ter um pronto-socorro eficiente, arsenal médico, equipamentos para diagnóstico e solução efetiva para o paciente não ficar nos corredores, como ocorre hoje”, pondera.