É com ansiedade e expectativa que os moradores do Núcleo 9 de Julho vão se reunir hoje à noite no centro comunitário para assistir a um filme muito especial para eles. “O Mutirão de Amor”, título da fita, narra o drama de um grupo de moradores do Parque Jaraguá, que teve suas casas destruídas durante forte chuva, e ergueu outras moradias onde hoje é o Núcleo 9 de Julho - localizado entre os parques Jaraguá e Roosevelt e Núcleo Fortunato Rocha Lima.
Dirigido pelo italiano Mario Civelli em 1983, o filme tem 60 minutos e o ator Cláudio Cavalcanti como narrador da história.
Segundo material distribuído pela assessoria de imprensa da prefeitura, o curta é aberto com Cavalcanti no Teatro Vitória Régia, fazendo um breve relato da história que vai contar.
Após a chuva, uma comissão de moradores foi à prefeitura - na época Tuga Angerami era o chefe do Executivo - pedir terreno para construir de novo suas casas. As moradias do Núcleo 9 de Julho foram levantadas num esforço conjunto dos moradores e da Compahia de Habitação Popular (Cohab).
Cavalcati vai acompanhando o desenrolar do drama com participações que não interagem com as dezenas de artistas, a maioria mutirantes, personagens reais da luta pela construção de suas casas. A produção tem no elenco, ainda, a vereadora Majô Jandreice (PC do B) no papel de uma dona de casa que participa do mutirão.
“Eu trabalhava de doméstica durante o dia e, à noite, ia para lá (canteiro de obras) trabalhar na construção das casas, junto com meu marido”, relembra Maria Elza Pequena de Oliveira. Ela conta que foi graças ao mutirão que conseguiu a casa própria. “Eu morava com meu sogro, no Parque Jaraguá. Depois da chuva, que deixou muitos desabrigados, começou o mutirão e nós participamos”, relata.
Hoje com três filhos já criados, ela mora na mesma casa que ajudou a construir, há 22 anos. Apesar de não fazer parte do elenco, ela está ansiosa para ver o filme. “Eu não apareço, mas meu marido, que já é falecido, está no filme”, frisa. A casa, conta ela, foi paga em parcelas e está quitada.
Duas décadas após a entrega das casas, ela diz que a vida melhorou, mas frisa que ainda tem rua de terra no bairro. “Na época já tinha luz, mas nem todo mundo tinha água encanada - o caminhão-pipa abastecia parte do bairro. Teve um programa de asfalto, mas não chegou a todas as ruas. Agora é que estão terminando de pavimentar com os bloquetes”, frisa Maria Elza.
O motorista Adão de Carvalho, hoje com 39 anos, vai ver o filme com uma expectativa: verificar se aparece ou não na produção. “Eu era ainda meio moleque na época e não lembro muito. Como nunca vi o filme, não sei se apareço”, explica.
Também com a casa quitada, ele lembra que pagou o imóvel em parcelas por durante 15 anos. “Minha família morava no Jaraguá de aluguel e por isso participou do mutirão. Eu também ajudei a construir as casas, inclusive fiz um curso de pedreiro. Os engenheiros da Cohab orientava e a gente construía”, comenta.
Carvalho lembra com saudade do grupo de jovens formado no bairro. “Era um grupo forte, mais que associação de moradores de hoje e dia”, frisa. Passados tantos anos, ele ressalta que o Núcleo 9 de Julho ainda é carente de infra-estrutura. “A iluminação das ruas é muito fraca e precisamos de asfalto, que agora estão fazendo”, completa.
O repositor Júlio César de Oliveira Vilela, 29 anos, que é líder comunitário do bairro, concorda que o Núcleo 9 de Julho ainda tem o que melhorar. “As lâmpadas realmente são fracas e o nosso centro comunitário está com o telhado ruim”, diz ele que era criança na época do mutirão, mas hoje tenta organizar os moradores para lutar por melhorias.
• Serviço
O filme “O Mutirão de Amor” será exibido às 19h de hoje no centro comunitário do Núcleo 9 de Julho (quadra 1 da rua Cândido Mariano da Silva Rondon). A entrada é gratuita.
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Projeto Rondon
Quem também está ansiosa para ver o filme hoje à noite é a diretora do Departamento Social da Secretaria das Administrações Regionais (Sear), Roxane Rodrigueiro. Estagiária do Projeto Rondon, na época, ela participou do mutirão e lembra que os trabalhos eram feitos com paixão.
Foi através dos relatórios que enviava mensalmente à coordenação do projeto que uma produtora de São Paulo se interessou pelo assunto e veio a Bauru para a produção do filme, que chegou a ser exibido pela TV Bandeirantes.
“Foi erguida uma casa-modelo (para mostrar como a moradia ficaria) e um barraco de favela lá no mutirão para representar a antiga e a nova casa dos moradores”, relembra. Sempre atuando em movimento social, a principal boa lembrança da época era a união dos moradores.
“As casas foram erguidas em mutirão - o trabalho ia das 18h às 22h - e tínhamos horta comunitária”, relata. Ela, que já viu o filme algumas vezes, conta que a fita relata um fato marcante e que mostra bem o espírito de solidariedade. “Um dos mutirantes morreu atropelado e como a viúva não podia trabalhar, todos os demais mutirantes se uniram e trabalhavam uma hora a mais por dia para a viúva”, completa.