08 de julho de 2026
Politicando

O coronelismo e o prefeito


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Numa grande Capital de um Estado distante havia três irmãos. O mais velho, coronel da Polícia Militar, ocupando o cargo de chefe de Polícia do Estado, equivalente à Secretaria de Estado nos dias de hoje.

O mais moço, advogado e prefeito de uma cidade próxima à Capital e candidato a deputado estadual pelo partido da situação.

O terceiro da irmandade, o mais jovem, ocupava as funções de secretário de seu irmão prefeito.

Em todas as cidades do Interior há mais de meio século os chefes políticos, sempre os mais ricos e influentes, nem sempre eram os mais letrados e se autocognominavam “coronéis”.

Àquela época, nem todas cidades tinham luz elétrica. Não existiam barragens nem recursos para fazê-las. Algumas eram iluminadas, precariamente, por geradores a óleo diesel.

O “coronel” Ribaldo, chefe político da região, ferrenho inimigo do governador do Estado e do prefeito, era também dono da “usina” de geradores que fornecia luz à cidade, das 18h às 24h.

Todos os anos, o “coronel” pedia autorização à prefeitura para aumentar o preço das taxas desse serviço. Assim o fez, novamente. Como era ano político, o prefeito, candidato a deputado estadual, acatou sugestão do governador e não o concedeu. Às 23h o telefone toca e o governador atende:

- Governador, desculpe-me eu telefonar a essa hora. Mas acabo de receber ultimato do senhor Ribaldo para eu desocupar a cidade em 24 horas, senão ele não se responsabilizaria pelo que pode acontecer.

- Mas prefeito, o coronel da Polícia Militar, atual chefe de polícia, a maior autoridade policial do Estado, é também seu irmão. Vou telefonar para ele tomar as providências necessárias, de maneira que elas ocorram ainda amanhã.

- Tenente, aqui é o coronel, chefe de Polícia. Prepare um sargento e seis soldados, os mais altos, para uma missão importante. Que venham uniformizados, com mosquetão (fuzil menor) e parabélum (pistola automática de procedência alemã, de alto impacto e aparência intimidadora).

Também um cavalo, minha espada, o talabarde engraxado e o capacete de campanha. Eu vou com um carro oficial até a cidade e lá passo à montaria. É uma missão para assustar determinado chefe político que está ameaçando o prefeito, nomeado pelo governador.

À 15h chegaram na cidade. Pararam no começo da principal avenida, justamente onde o senhor Ribaldo morava. Desceram de suas viaturas. O coronel montou no belo e alto cavalo. Os soldados se postaram, três de cada lado do seu comandante.

Empertigados, desceram a avenida, chamando a atenção de seus moradores, que foram se juntando, acompanhando os acontecimentos. A casa do “coronel” político ficava defronte à prefeitura, na principal praça da cidade, que já estava lotada de curiosos.

Chegando ao endereço, o piquete ficou em formação militar, aguardando ordens de seu superior.

- Soldados, batam à porta, com a coronha do fuzil. Uma senhora apareceu e se assustou.

- Quero falar com seu marido, falou o coronel, com voz empastada.

- Ele não está. Do que se trata? Respondeu tremendo e soluçando.

- A senhora tem filho?

- Dois.

- Chame-os.

- O que eles fizeram?

- Só quero lhes dar um recado.

Os dois apareceram. O mais velho tinha uns 22 anos e o outro, uns 18.

- A senhora sabe quem eu sou?

- Sou o coronel chefe de Polícia do Estado e irmão do prefeito da cidade.

- Se acontecer algo ao prefeito, a senhora escolhe qual dos dois filhos eu matarei primeiro.

Virou o cavalo e retornaram as viaturas. Alguns dias depois, ficaram sabendo que o “coronel” vendeu seus motores e desapareceu com a família. Estou relatando esses acontecidos, ocorridos há mais de 50 anos, porque sou um dos seus protagonistas, o secretário de meu irmão, o prefeito...

Contada por Felisdeu Leão