As transferências de pacientes do Centro de Tratamento e Reabilitação em Saúde Mental Sebastião Paiva tornaram-se um ritual de luto. O clima de consternação acompanhou a partida de 30 internos, encaminhados ontem ao Hospital Thereza Perlatti, em Jaú. Em um mês, outros 120 pacientes devem ser removidos do hospital, que encerrará suas atividades após 40 anos de funcionamento em Bauru.
A tristeza não se limita ao adeus entre cuidadores e internos. Ela também reflete a frustração de profissionais que, dia após dia, perdem a esperança de implementar no município uma nova política de saúde mental. A proposta foi enviada a representantes do governo do Estado e do município.
“Encaminhamos, mas até agora não recebemos nenhuma manifestação. Fiquei decepcionada porque a gente espera um retorno. Hoje, é um dia de luto no hospital. Dois pacientes não queriam se desgrudar”, conta a diretora técnica do Paiva, Cibele Mendonça. Por causa da situação, a auxiliar de enfermagem Neusa de Oliveira não conteve as lágrimas.
“A nossa relação é muito íntima. A gente vai preparando as coisas na esperança de que aconteça alguma coisa (para reverter as transferências)”, diz. A expectativa dela, assim como a dos colegas, é de que os pacientes continuassem sendo atendidos pelos profissionais do hospital, mesmo que por meio de uma organização não-governamental.
Com a mudança, o prédio seria transformado num centro de atenção psicossocial (CAP) com atendimento 24 horas, em residências e oficinas terapêuticas, além de outros serviços que viessem ao encontro da política de saúde mental estabelecida pelo Ministério da Saúde.
“O que mais frustra é que Bauru vai perder um centro de referência. Só quem tem um problema desse dentro de casa consegue compreender. Nós passamos mais tempo com eles do que em casa”, afirma o auxiliar de enfermagem, José Renato Diniz. Ele também concorda com os princípios do movimento antimanicomial, que prevê a oferta de equipes mínimas de atendimento especializado na rede pública municipal, centros de atenção psicossocial, prontos-socorros com equipe de emergência psiquiátrica e leitos em hospitais gerais.
No entanto, por enquanto, a única garantia que os funcionários têm é da transferência dos pacientes. Do total de 197, 74 já foram conduzidos para outras instituições, informa a assessoria de imprensa da Secretaria do Estado da Saúde. Outros 30 também serão remanejados para Jaú. O futuro do restante ainda está incerto. Mesmo assim, a expectativa do Estado é concluir o processo de transferência nos próximos 30 dias.
“Agora, caímos na realidade mesmo. Até a semana passada, tínhamos esperança (de outra solução). Sempre ouvimos falar em crise, mas não esperávamos que isso fosse acontecer (o encerramento das atividades)”, conclui a assistente social Luciana Fazio Dias.
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Diária
O Centro de Tratamento e Reabilitação em Saúde Mental Sebastião Paiva mantinha os 30 pacientes transferidos de Bauru com diária de R$ 28,76. Em Jaú, para onde foram transferidos, o Ministério da Saúde pagará pelo menos o dobro. A situação, que foi alvo de críticas da presidência do hospital, será analisada pelo coordenador nacional de saúde mental, Pedro Gabriel Delgado.
Até ontem à noite, ele desconhecia a diferença, mas disse que ela seria apurada com o próprio hospital e com a Secretaria do Estado da Saúde. Para Delgado, o processo de reforma psiquiátrica em Bauru deve ser acelerado, com a instalação de residências terapêuticas e centro de atenção psicossocial 24 horas, além de programas como o “De volta para casa”, que garante remuneração a pacientes que, após o tratamento, retornam à família.