10 de julho de 2026
Articulistas

O recado veio antes das urnas


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Costuma-se dizer que aos políticos que decepcionam seus eleitores as urnas oportunamente dão o recado. Esta verdade parece ter perdido a validade há alguns meses, quando a população do pequeno município goiano de Cidade Ocidental, enfurecida com o aumento que seus vereadores concederam a si mesmos, iniciaram uma rebelião que só foi contida pela polícia a muito custo. Talvez lá, a politicalha tenha entendido que as coisas não são mais bem assim.

Como Rondônia fica um tanto distante daquela cidadezinha goiana e seu governador e deputados talvez não tenham lido a reportagem sobre Cidade Ocidental, os maus costumes continuaram a nortear o comportamento de suas excelências. E a corrupção correu solta, como de resto ainda corre Brasil afora; vide episódio Correios, ainda em cartaz. Mudaram talvez os costumes, pois se antes ouvia-se um resmungo aqui e ali, ou uma passeata percorria ruas em protesto contra os deploráveis e sempre recorrentes atos de usurpação da coisa pública, agora, com a devida vênia do secretário dos Direitos Humanos, Nilmário Miranda, pode-se afirmar sem sombra de dúvida que a coisa ficou preta. Pretíssima. Lá em Porto Velho, onde a reportagem da TV Globo não chegou, por obra e graça dos préstimos do Judiciário, a fúria dos munícipes suplantou a mais pessimista expectativa, se alguma havia por parte daqueles a quem cabia a nobre tarefa de zelar pela coisa pública.

Dir-se-á: Os tempos mudaram! E como! Tudo aquilo que a complacente Justiça local tentou abafar veio a público com a força de um vendaval, na forma da mais legítima indignação popular. Bem organizada, a torcida levou até notas de R$ 50 mil, com a inscrição: válida somente para a compra de um deputado corrupto, o mesmíssimo valor que os dignos representantes de si mesmos, jamais do povo, pediam ao governador, a mesada do apoio. Num País onde ações de barbárie são toleradas pelas autoridades, aquelas mesmas em que o leitor está pensando, do MST, esta surra moral e quase física que aqueles legisladores tomaram da população adquire um tom de legitimidade incontestável. Desta vez, a soberba e a (não mais) certeza da impunidade destruíram a ponte que ligava, ainda que de forma precária, representantes e representados.

A ausência do Estado, do Estado legítimo, coerente com leis e princípios, levou ao ponto de não-retorno, de ruptura, cansou. O episódio teve, como tudo, dois lados: O didático, que define quem é quem numa situação-limite, e o reprovável - não fosse o tanto de deboche com que foram os cidadãos tratados por tanto tempo -, que é ver as pessoas chegarem às vias de fato. Não é bom que se repita, mas para isto, salutar seria que todos aqueles que detêm alguma parcela de poder pelo povo gentilmente delegado observassem os limites em que se dá a ruptura, tão claramente demonstrados neste democrático e didático acontecimento.

O autor, Luiz Leitão, é articulista