08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Pedofilia


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Reporto-me à carta nesta coluna (19/4, página 20), sob o título “Consciência tranqüila”, de autoria da prezada senhora Iris Linhares Ferreira de Mello, para parabenizá-la pela sua sinceridade, coragem e firmeza em abordar casos lamentáveis e tristes de pedofilia praticada por padres. O assunto me fez lembrar reportagem de página inteira, em 2002, no jornal Folha de São Paulo. A reportagem focalizava vários aspectos sobre esse grave problema. Comentando o comportamento da Igreja Católica em face desses fatos, registrava o seguinte pronunciamento de dom Angélico Sândalo Bernardino, bispo da diocese de Blumenau (SC) e responsável pelo setor de Vocações e Ministério da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil): “A pedofilia é crime e deve ser punida como tal, só que a Igreja não vai entregar um filho seu para a Promotoria”.

A pedofilia na Igreja tem sido comentada na mídia nacional e internacional. Segundo a reportagem, ao “proteger” seus padres acusados de pedofilia, a Igreja não comete crime, diz Arual Martins, promotor de Justiça do Centro de Apoio da Promotoria de Justiça Criminal do Estado de São Paulo. Ressalto, como professor aposentado do magistério estadual, com ingresso em escola isolada rural, que o procedimento da Secretaria de Estado da Educação é bem diferente ou melhor, adotava e adota medidas disciplinares rigorosas, inclusive preventivas.

Ingressei no magistério público primário do Estado, em meados dos anos de 1950. A escolha das vagas era realizada em São Paulo. As vagas das escolas rurais eram oferecidas em duas listas distintas: escolas femininas e escolas masculinas. Os professores somente podiam escolher as escolas masculinas, para as professoras era livre a opção. Escolhi a Escola Masculina do bairro do Ribeirão Grande, município de Alto Alegre, considerada de 1.º estágio, de difícil acesso. Total isolamento, sem luz elétrica, telefone e rádio; luz de lamparina a querosene.

Quando na ativa, tive conhecimento de fato envolvendo professor, referente ao procedimento de atitude sexual com alunas. Não houve a menor condescendência por parte das autoridades educacionais. Houve afastamento imediato do professor, com processo administrativo, inclusive na área policial.

Voltando à reportagem em referência, é registrado também um pronunciamento sobre o assunto, do frei Betto, com o título “Celibato é debate inevitável”. É oportuno transcrever trechos dessa importante opinião do ilustre frei Betto: “A Igreja Católica é uma instituição curiosa. Ao contrário de todas as outras, não busca atrair os melhores, os santos, mas os pecadores. E oferece a eles apoio, tolerância e, sobretudo, a misericórdia divina. Se não pede atestado de santidade a seus fiéis, a Igreja Católica exige virtudes heróicas de seus bispos, padres e religiosos. Entre elas, a castidade, que nem Jesus exigiu de seus apóstolos; prova disso é a cura da sogra de Pedro (Marcos, 1,30). Quem teve sogra, teve mulher”.

Assinala frei Betto: “Casos de pedofilia na Igreja Católica são a ponta do iceberg de uma instituição que concede o equívoco de congelar o debate sobre a obrigatoriedade do celibato e da castidade, a reinserção ministerial dos padres casados, o sacerdócio das mulheres. Nenhum ser vivo é livre da pulsão sexual, incluindo Jesus. Clandestinizar a questão, como se todos os candidatos ao sacerdócio fossem anjos, é deixar correr por baixo uma energia que, se não bem canalizada, acaba estourando em vítimas inocentes do mais hediondo crime sexual. Mais grave do que esse crime é acobertá-lo, deixando à solta quem deveria estar sob tratamento”.

O jornal O Estado de S. Paulo, edição de (14/4/05) trouxe um caderno Especial, com oito páginas sob título - Dossiê Estado: A crise da Igreja Católica -, com vários assuntos, com análises oportuníssimas, realistas e esclarecedoras para reflexão. Renovo meus cumprimentos à senhora Iris Linhares Ferreira de Mello, pela sua coragem, sinceridade exposta em sua carta, mostrando que é uma cristã e católica de visão ampla, não míope e nem amorfa.

Rodolpho Pereira Lima - professor aposentado do magistério estadual