A constatação de que ruas mal iluminadas favorecem a criminalidade é óbvia, mas foi a partir desta premissa que um aluno do 5.º do curso de engenharia elétrica da Universidade Estadual Paulista (Unesp-Bauru) ganhou projeção nacional.
Marcelo de Castro, 22 anos, conquistou o primeiro lugar do Prêmio Geniuz, concurso criado pela General Eletric para homenagear e divulgar projetos de iluminação. Logicamente, a premiação não veio pela constatação simplista de que a penumbra favorece a criminalidade, mas porque, a partir dela, foram propostas soluções capazes aliviar o problema.
Castro conta que no início do ano passado começou a estudar o tema iluminação pública e sua relação com os índices de violência. Sob orientação do professor Luís Gonzaga Campos Porto, titular da cadeira de instalações elétricas-3 do curso de engenharia elétrica da Unesp-Bauru, o aluno solicitou à Polícia Militar (PM) as estatísticas de roubo e assaltos, separados por ruas e cometidos no período noturno e na madrugada (18h às 6h). Os dados são de 2003.
Com isto em mãos, mais a planta da iluminação pública das principais vias onde ocorreram os delitos, o grupo - formado por um engenheiro, uma arquiteta e outros três alunos - foi às ruas com um luxímetro digital (aparelho portátil que mede a iluminação de um local ou superfície) para fazer as medições de acordo com os procedimentos descritos em norma técnica, através da Norma Brasileira de Regulamentação (NBR) 54, da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT).
“Com as medições feitas, comparamos os resultados obtidos com o que determina a norma técnica e elaboramos propostas para melhoria da iluminação”, comenta Castro. O trabalho premiado, no entanto, restringiu-se à proposição de soluções para a avenida Getúlio Vargas, via que apresentou, segundo dados da PM de 2003, o maior índice de ocorrência de roubos e furtos no período noturno.
Coincidentemente (ou não), a avenida Getúlio Vargas possui, em seu novo trecho duplicado, uma iluminação totalmente em desacordo com as normas técnicas, o que deixa o lado no sentido bairro-centro, que margeia a pista do aeroporto, muito escuro. O estudo admite que outros fatores podem ter influenciado nos altos índices de roubo e assalto (grande aglomeração de pessoas e grande número de veículos estacionados), mas conclui que a iluminação pública precária contribuiu para a situação.
Solução
O trabalho do estudante Marcelo de Castro constatou que a iluminação naquele trecho da avenida (região da quadra 15) está tão fora dos padrões determinados pela norma técnica que uma simples troca das lâmpadas atuais por outras mais potentes não resolveria o problema. Estes padrões são determinados segundo a largura da via, vocação predominante (comercial ou residencial), além do número de veículos e pedestres que circula por ela.
Nas medições realizadas, constatou-se que o valor médio de iluminância determinado pela norma, de 16 lux (unidade que indica a intensidade da iluminação), é completamente atendido no lado da pista Centro-bairro, onde estão instalados os postes - nesta região, as medições encontraram valores próximos de 20 lux.
O problema ocorre justamente no lado contrário (pista bairro-Centro), onde os estudantes se depararam com irrisórios e inaceitáveis índices 2 lux, valor mais de 85% menor que o mínimo determinado - uma verdadeira penumbra.
Em seu trabalho premiado, Castro propõe uma mudança total no sistema de iluminação, que atualmente tem postes em apenas um dos lados das vias, dotados de lâmpadas de 250W. Pela proposta, os postes seriam deslocados para o canteiro central e teriam luminárias com quatro pétalas, que abrigariam lâmpadas de 100W. “A escolha das quatro pétalas de 100W levou em consideração o custo menor da lâmpada e um risco pequeno de escuridão em caso de queima de uma delas”, atesta Castro em seu estudo.
Ele ressalta ainda que o modelo proposto traria ganhos também por conta da maior vida útil das lâmpadas. “Considerando que as lâmpadas ficam acesas 12 horas por dia, calculamos que a concessionária ganharia 1,4 ano a mais de uso, representando uma grande economia em seu orçamento”, completa. “São ganhos tanto para a companhia de distribuição, na questão da economia, quanto para a comunidade, que terá um sistema dotado de beleza visual e qualidade”, atesta Castro na conclusão de seu trabalho.