Por volta das 21h da última terça-feira, a reportagem do JC nos Bairros deparou-se no Jardim Tangarás, região sudeste, com o aquele que pode ser considerado o personagem ideal para uma matéria sobre as deficiências de iluminação pública na cidade.
A presença do pintor Expedito Torres de Souza, 38 anos, não chamaria a atenção não fosse por um detalhe, no mínimo, pitoresco: o uso de uma lanterna. Souza caminhava por uma das ruas de terra do bairro para buscar o filho de 13 anos num culto religioso.
Morador no Jardim Tangarás desde 1997, Souza parecia resignado com os anos de esquecimento por parte do poder público. “Sempre estivemos sem luz por aqui”, disse, lembrando que várias reportagens já abordaram, em vão, o problema. “Não adianta pedir para a prefeitura (colocar luz). Eu mesmo já pedi”, conta.
O pintor, que mantém sua lanterna na cabeceira da cama, comenta que a principal preocupação é com a segurança dos moradores. Apesar dele próprio não ter sido, ainda, vítima de qualquer ato de violência, como assaltos e roubos, Souza conta que pessoas desconhecidas recentemente seguiram sua cunhada pelas ruas escuras do bairro. “Ela teve de correr muito, pois teve medo de ser estuprada”, disse.
Souza acredita que, em função da iluminação precária, aliada à total ausência de asfalto, patrulhas da Polícia Militar (PM), principalmente à noite, “são uma raridade”. “Eles (PM) quase não aparecem por aqui. Pelo menos eu não percebo a presença deles por aqui”, atesta.
Em outro ponto da cidade, só que na rica região sul, moradores vivem situação semelhante à do pintor que anda pelo seu bairro com uma lanterna. Na Vila Aviação, as ruas também são de terras e várias delas não contam com sequer um poste de iluminação. Em outras, apenas um “valente” ponto de luz acaba responsável por iluminar uma grande área.
A situação só não chama tanto a atenção das autoridades porque o bairro, principalmente nas proximidades da rodovia Marechal Rondon, é pouco habitado - há quadras com apenas uma residências.
O pedreiro aposentado Ivo Ferreira Lima, 78 anos, não reclama da falta de luz e garante que a criminalidade não preocupa. “Ninguém perturba e nunca houve assalto na minha casa”, afirma o aposentado, morador no local há 30 anos. Ele admite, porém, que seu neto de 15 anos que mora com ele não poderia, mesmo que quisesse, freqüentar a escola no período noturno. Segundo ele, a polícia “passa de vez em quando”.
O secretário de Obras Leandro Joaquim reconhece que há uma forte demanda por iluminação e lembra que existem 1.700 pedidos de instalação de pontos de luz já feitos pela prefeitura à Companhia Paulista de Força e Luz (CPFL).
“Há vários pedidos para as avenidas Getúlio Vargas, Nações Unidas e Jânio Quadros, mas há solicitações ‘de monte’ para os bairros periféricos”, diz Joaquim. As requisições, porém, aguardam uma definição da disputa judicial entre as partes.
O secretário, no entanto, aposta numa solução a curto prazo. Na sua avaliação, há interesse de todas as partes na retomada dos investimentos: da prefeitura, que poderia garantir melhores condições de vida à população da periferia, e da própria CPFL, que estaria garantindo um aumento na demanda pelo consumo de energia, que seria paga pela prefeitura, pelo menos após a resolução do impasse.
O gerente de Serviços de Campos da CPFL, Josias Ricardo de Souza, confirma este interesse da companhia - “venda de energia é o nosso negócio” - e lembra que a cidade possui cerca de 2 mil pontos escuros, o que tecnicamente significa postes energizados, mas sem iluminação.
Patrulha dificultada
Alguns comandantes das Bases Comunitárias de Segurança da PM admitem que a falta de iluminação é um dos principais impeditivos de um patrulhamento mais efetivo em algumas regiões.
O tenente William Carlos Padovini, comandante da Base Sudeste, lembra que a situação é mais complicada em bairros periféricos e cita o Jardim Tangarás, o Ferradura Mirim, a Vila Santo Dumont e o Jardim Manchester como as regiões mais críticas de sua base. “A falta de asfalto e área de mato tornam o trabalho mais complicado ainda”, diz, numa referência à realidade encontrada, por exemplo, no Jardim Tangarás.
Já o tenente João da Costa Duarte, da Base Sul, reforça o estudo premiado do aluno da Unesp e diz que a avenida Getúlio Vargas realmente possui uma área “de escuridão”, justamente a utilizada por moradores em suas caminhadas. Ele cita problemas decorrentes da grande aglomeração de pessoas, como badernas e até atos ilícitos, que uma iluminação eficiente poderia inibir.
Ainda na sua área, Costa Duarte aponta como “muito preocupante” a região da Vila Aviação, nas proximidades da avenida Getúlio Vargas, que devido à falta de iluminação virou palco ideal para estupradores praticarem seu crime. Ele garante, porém, que a falta de luz não impede o patrulhamento, que é realizado de forma preventiva com mais freqüência em locais onde o crime acontece com maior incidência.
Na Base Leste, localizada no Núcleo Mary Dota, o tenente Milton César Maciel lembra que um bairro crítico com relação à iluminação é a Quinta da Bela Olinda, onde, segundo ele, as próprias redes de energia elétrica com o tempo foram sendo danificadas por roubo de cabos. “É comum os moradores do bairro, assustados com a escuridão, ligarem pedindo patrulhas preventivas da PM”, comenta.