09 de julho de 2026
Saúde

'Banco de cordão umbilical gera ilusão'

Sabrina Magalhães
| Tempo de leitura: 3 min

O caráter promissor das células-tronco para o tratamento de doenças tem levado um número cada vez maior de casais a armazenar o sangue do cordão umbilical de seus filhos. Mas os especialistas advertem que é preciso cuidado para não alimentar falsas expectativas, pois nem tudo que tem sido prometido poderá ser cumprido no futuro.

É o que destaca o geneticista Esiquiel de Miranda, de Bauru. Ele explica que uma das razões que levam o casal a guardar o sangue dos recém-nascidos é a possibilidade de usar o sangue do próprio bebê para tratar doenças que apareçam nele no futuro, como a leucemia, cujo tratamento exige transplante de medula.

“Alguns bancos privados de cordão umbilical estão, inclusive, anunciando o transplante solidário. Em famílias que apresentam problemas genéticos, eles coletam e armazenam o sangue de cordão gratuitamente. Mas se a criança tiver uma doença genética amanhã, as células-tronco dela que estiverem congeladas terão o mesmo defeito genético e, portanto, não vão servir para tratá-la”, exemplifica.

Outro problema, segundo ele, é que a quantidade de células-tronco extraídas do cordão umbilical é muito pequena e, na maioria das vezes, não seria suficiente para um transplante. “A pessoa poderia ter, no máximo, 60 quilos para que a quantidade de células do cordão umbilical fosse suficiente”, observa.

Na opinião de Miranda, o Brasil deu um grande salto nas pesquisas com células-tronco quando criou o Brasilcord - rede nacional de bancos públicos para armazenamento de sangue de cordão umbilical.

“Num banco público com 12 mil, 15 mil cordões armazenados, é enorme a chance de encontrar células-tronco compatíveis com qualquer pessoa e o transplante torna-se mais seguro, pois o paciente vai receber um ‘pool’ (conjunto) de cordões, com características genéticas diferentes entre si”, defende.

“Só nesse ano eu já recebi 18 telefonemas de casais interessados em armazenar sangue de cordão umbilical de seus filhos. Eu os tenho desaconselhado a fazer isso (em bancos privados)”, alerta.

O médico Luiz Amorim, que há nove anos coordena o Serviço de Hemoterapia do Instituto Estadual de Hematologia do Rio de Janeiro (HemoRio), tem a mesma opinião. Em entrevista recente veiculada na revista Radis, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), ele disse que os bancos de sangue de cordão umbilical que armazenam o sangue de uma criança para ser usado somente nela, criam uma demanda perigosa para o País.

“Esses bancos cobram entre R$ 3 mil e R$ 5 mil para fazer isso, além de uma taxa anual de manutenção que gira em torno de R$ 1,5 mil”, afirma. “O risco desse procedimento é criar uma expectativa que não é muito verdadeira. O sangue do cordão umbilical tem muita célula-tronco, mas o volume é limitado. O cordão é pequeno, tem apenas 100 mililitros de sangue. Esse volume transplanta uma criança, mas não transplanta um adulto. Também não transplanta uma criança gorda”, reforça.

Amorim esclarece que não existe qualquer irregularidade no funcionamento desses bancos, já que a legislação brasileira permite sua instalação. “Mas em muitos países da Europa isso é proibido. Itália e França não permitem a instalação de bancos autólogos. Na Espanha não é proibido totalmente, nas não pode ser feito por empresas com fins lucrativos, ou seja, não tem nenhuma empresa lá”, acrescenta.

Segundo Miranda, o Ministério da Saúde acaba de convocar geneticistas, donos de bancos privados de sangue de cordão umbilical e atores que participam de propagandas desses bancos para uma audiência pública sobre células-tronco. “Eu acredito que, dessa audiência, deverá sair algum tipo de regulamentação sobre o assunto”, diz.