“É um privilégio muito grande poder desfrutar da arte. Passar a vida envolvido com a arte é engrandecer o espírito”, avalia o artista plástico Percÿ Coppieters, ao completar 35 anos de estrada. Revelando-se mais maduro em sua trajetória profissional, ele colhe os frutos de um trabalho iniciado nos anos 70.
Autodidata, Percÿ, 51 anos, começou a se interessar pela pintura ainda na infância, quando passava horas lendo sobre artes. Anos mais tarde, se mudou para São Paulo, onde teve as primeiras impressões sobre arte brasileira e internacional em ateliês de amigos.
A partir daí, passou a se dedicar não apenas à pintura, mas a tudo que se referia às artes. Na Capital, trabalhou com o comércio de antiguidades e começou a pesquisar materiais e técnicas de pintura em livros, revistas e na Internet. Na década de 70, mudou-se para a Europa, em busca de mais conhecimentos na área.
De volta ao Brasil, Percÿ mudou-se em 1991 para Bauru, considerada por ele sua “terra natal”, embora tenha nascido em Ourinhos, em 16 de janeiro de 1954. Vivendo há 14 anos na cidade com a esposa Roberta e as filhas Gabriela e Laura - de 8 e 5 anos, respectivamente -, o artista é apontado como referência na área de fabricação de telas e molduras na América Latina, atividade desenvolvida juntamente com a produção de quadros e gravuras.
Produção, aliás, que é caracterizada pelo ritmo e rapidez. Percÿ levou quatro dias, por exemplo, para preparar sua mais recente mostra “Liturgia das Cores... Celebração das Formas”, que foi apresentada no Centro Cultural “Carlos Fernandes de Paiva” e deverá ser exposta em breve em uma universidade de Bauru.
Em um pouco mais de meia hora, durante entrevista ao Jornal da Cidade concedida no último dia 12 em seu ateliê, o artista produziu uma bela gravura em estilo impressionista, uma das referências de sua carreira. Entre um traço e outro, Percÿ falou sobre suas inspirações, seu trabalho e o cenário das artes plásticas na cidade.
Jornal da Cidade - Como iniciou sua carreira?
Percÿ Coppieters - Desde criança eu sempre gostei muito de artes. Eu lia coleções sobre artistas e achava muito glamouroso, principalmente sobre os impressionistas. Não tenho formação acadêmica como artista plástico. Mas tenho um trabalho de pesquisa muito grande. Em São Paulo pude freqüentar ateliês de grandes artistas. Tive a sorte de encontrar pessoas muito generosas para ensinar, como Aldemir Martins, Darci Penteado, Rebolo, Otávio Araújo, que são nomes fortes no Exterior e representam bem a arte brasileira. Aí começei a ir atrás da arte, mas antes mexi com antigüidade e passei a me interessar pela moldura e história da pintura.
JC - Quais são suas referências na pintura?
Percÿ - Cézanne, que é rico pelo desenho, Matisse, e outro grande pintor, Balthus, que é uma expressão em artes. Em relação à Cézanne, coincidentemente fui morar em um local onde havia seu último ateliê e aí pude entender os fundamentos do impressionismo, luz, cor, matéria.
JC - A reportagem acompanhou a produção de uma gravura durante a entrevista. Como surge a inspiração para seus trabalhos?
Percÿ - Meu processo criativo normalmente começa na gravura. Por exemplo, essa forma geométrica que produzi, um semicírculo dourado, saiu da forma que eu vi em outra gravura. Gosto das formas e isso está implícito dentro do aprendizado do desenho. As formas fazem com que nós possamos ter mais facilidade em começar uma obra, mesmo sem inspiração, que é aquilo que todo os artistas falam.
JC - Mas a inspiração não seria justamente uma das etapas mais difíceis do processo, segundo grande parte dos artistas?
Percÿ - A inspiração é a própria prática. É preciso ter uma imagem e aprender a brincar com a ludicidade. Quando a pessoa deixa que o lúdico tome conta do seu caminho, fica mais fácil para ela se expor. Por isso Picasso tinha um ritmo altamente produtivo, porque ele se permitia brincar. É comum, por exemplo, alguns artistas falarem que têm medo do branco. Ao contrário, ele é uma fonte de inspiração. Quando o artista tem recursos técnicos de pintura fica mais fácil avançar para cima de um branco. Tanto é que se mudou o padrão. Hoje, algumas telas são ligeiramente ocres. A inspiração é a prática que o artista adquire e o repertório que ele faz. Se ele é um indivíduo muito pouco propenso à leitura e a conhecer amplamente o que acontece em termos de arte, fica mais difícil.
JC - De que forma a experiência de morar na Europa contribuiu para sua trajetória como artista? Como o senhor avalia o cenário de arte brasileira em comparação com o Exterior?
Percÿ - Ter morado seis anos fora do Brasil, na Espanha, França e Inglaterra, me ajudou bastante. Isso faz com que os artistas possam ter noção da arte lá fora. É engraçado, porque o conhecimento da arte na Europa não está nem nos grandes centros, mas no Interior dos países. Morei em uma cidade onde viveu Cézanne. Para mim foi uma experiência engrandecedora. Em cidades européias, de dez ou 15 mil habitantes há galerias de arte atuantes, que promovem exposições São pessoas que se movimentam em benefício da arte, não só a arte local, mas regional. No Exterior se produz muito mais do que no Brasil e os materiais são de melhor qualidade. Na França e na Bélgica, por exemplo, o que favorece a arte é, primeiramente, tinta de excelente qualidade a um preço muito baixo.
JC - O senhor é considerado nome de destaque na fabricação de telas e molduras, inclusive ministra cursos sobre o tema. Como é esse trabalho?
Percÿ - Eu procuro me municiar e saber trabalhar bem com alguns materiais para preparar suportes o tempo todo. A fabricação de molduras veio por curiosidade, por pesquisa e também um pouco por necessidade em saber como funcionava isso. Eu via esses materiais a preços exorbitantes. Mas aí descobri que esses preços não precisam ser tão altos. Foi por isso que resolvi fazer molduras, para ajudar os artistas plásticos a expor. É fundamental usar nossa experiência em cima do coletivo de artistas.
JC - O cenário cultural de Bauru tem muitos artistas plásticos trabalhando de forma isolada. Os profissionais da área, em geral, são desunidos?
Percÿ - Eu estou em Bauru desde 1991. Desde que estou aqui só conheço bons artistas solitários. Cada um no seu canto vai trazer pouca coisa para o coletivo. Por isso bato na tecla de que os artistas devem ter uma associação forte. O pessoal vai ter que dar uma dominada no ego para um objetivo coletivo e um engrandecimento da arte dentro de Bauru. Nós temos um movimento fantástico nesse sentido, com muitos artistas que pintam muito bem e outros que estão começando e têm condições de continuar. Temos que buscar efetivamente uma união. Trabalhar solitariamente não engrandece em nada.
JC - Mudando de assunto, enquanto produzia seu trabalho, o senhor não tirou o semblante feliz. O bom-humor faz parte de sua trajetória?
Percÿ - As pessoas falam que os capricornianos são sisudos. Eu nunca fui mal-humorado. Às vezes o coração pode estar chorando, mas eu estou sempre rindo e encarando com bom-humor porque não há outra forma de encarar. Lógico que entramos em pânico algumas vezes porque vivemos num país como o Brasil, cheio de fragmentos do passado e da ditadura, mas eu procuro manter o bom humor em todas as situações.
JC - Qual é o balanço que faz de sua vida e de sua carreira?
Percÿ - Nos últimos dez anos explorei muito o ouro e o dourado nos meus trabalhos. Por esse fato, posso dizer que passei muitos anos garimpando. Hoje estou num momento em que a reflexão sobre a arte aumenta, é cada vez mais forte, tanto é que estou produzindo menos, mas com mais qualidade. Estou na fase de pegar o ouro da vida. Na fase de aproveitar a riqueza que a própria experiência nos dá, de poder me dar o luxo de fazer certas coisas que antes tinha medo de fazer e até de ousar. Hoje esse ponto para mim é expressivo, antes eu tinha medo de ousadias. E tenho explorado muito a relação da arte com Deus e a relação do homem com Deus.
JC - Como é essa relação de arte e Deus, na sua opinião?
Percÿ - Primeiro é um privilégio muito grande poder desfrutar da arte, poder passar a vida envolvido com a arte. Isso engrandece e amadurece muito nosso espírito e nos torna sempre um pouco melhor, apesar das dificuldades em se fazer arte no Brasil. Acho que assim nós crescemos, abrimos um caminho de luz muito maior nesse universo todo que nos leva até Deus. É isso também que me faz rir muito, ter bom humor diante das situações. Mesmo quando elas são difíceis, é através da arte que eu chego às soluções. Até para resolver os problemas financeiros, é através da arte, porque eu deixei que isso fluísse naturalmente. Percebi que é uma coisa entre o artista e Deus. Quantas pessoas que gostam do Cézanne e tiveram o privilégio de estar perto do último ateliê e praticar os caminhos que ele mesmo fez? Isso me dá a certeza de que na ponta de toda a caminhada está a luz, está Deus.