09 de julho de 2026
Articulistas

Europeus no exílio?


| Tempo de leitura: 3 min

“Somos europeus no exílio”, teria dito o genial literato argentino Jorge Luis Borges, citado no livro “Crônica de Uma Guerra Secreta”, alentada obra do ex-embaixador brasileiro, hoje aposentado, Sérgio Correa da Costa. Conforme o autor relata na orelha do livro, “esta crônica do ocaso de minha vida tem como pedra angular uma aventura de mocidade ao tempo de Perón e Evita. Esta aventura, que conservei em segredo absoluto até mesmo de minha mulher e filhos, consistiu em penetrar nos recintos mais vigiados do Archivo de La Nación e fotografar documentos ultra-secretos, altamente comprometedores do governo argentino. Isso, vale salientar, muito antes de James Bond nos ter ensinado o caminho”.

No livro, Costa relata que todos os boatos e receios sobre a inevitabilidade de um confronto militar entre o Brasil e a Argentina, tema recorrente na mídia até hoje, tem absoluta razão de ser e procedência. Organizando a documentação a que teve acesso e fotografou, produz obra instigante já pelo subtítulo: “Nazismo na América: a conexão argentina”. E mais: “Uma vez caído o Brasil, o continente sul-americano será nosso”, segundo Juan Perón, em manifesto do GOU (Grupo de Oficiais Unidos), de 3 de maio de 1943. Em resumo: se Hitler e o nazismo não tivessem sido derrotados na Segunda Guerra Mundial (1939-1945), o Brasil seria hoje parte da Grande Argentina.

Num mapa secreto traçado, uma linha horizontal dividiria o continente sul-americano na altura de Minas Gerais para baixo, abrangendo na mesma latitude países como a Bolívia, Chile e Uruguai, formando o que viria a ser a “Gross-Deutschland”, um delírio expansionista alemão de então. O livro de Costa é um relatório circunstanciado fartamente documentado, onde demonstra que a Argentina foi reduto dos nazistas que passaram a fugir tão logo a derrota mostrou-se inevitável. Nessa fuga em massa dos principais cabeças, o Brasil também não ficou de fora, uma vez que os nazistas consideravam de muita importância a prevalência da colonização alemã em grande parte de Santa Catarina e Rio Grande do Sul, onde o idioma alemão deveria ser ensinado como a segunda língua, obrigatoriamente.

A Argentina foi, a bem dizer, uma “fixação do Reich”. Motivo básico: era país pivô no planejamento de Hitler, por ser o único europeu num continente de extrema mestiçagem, uma vez que, ao longo do século XIX, na Argentina: a) os negros e mulatos foram sendo absorvidos e em poucas gerações desapareceram; b) os índios, virtualmente liquidados pelas campanhas militares, no recenseamento de 1947 já eram menos de 5%, com tendência a zero; c) a esmagadora imigração européia, que só entre 1856 e 1896 registrou 6 milhões de espanhóis e italianos se radicando no país.

Quando, ironicamente, nós brasileiros dizemos que “o argentino não passa de um italiano, que fala espanhol pensando ser inglês”, não se está muito longe de uma realidade latente, aflorando outros pontos de conflitos que emergem no relacionamento, como vem sucedendo recentemente nas questões comerciais. O livro de nosso pioneiro e precoce James Bond caboclo, merece um mergulho em suas 530 páginas, principalmente pelas novas gerações de patrícios, cujo conhecimento do último grande conflito mundial se resume aos filmes americanos, que pouco ou nada aludem às repercussões que nos atingiram se o resultado final tivesse sido outro. Deus nos livre!

O autor, Faukecefres Savi, é advogado e jornalista-colaborador