Um colega chegou assustadíssimo na sala dos médicos do hospital onde trabalha, em uma cidade de porte médio do Interior paulista. Estava saindo de seu plantão noturno e havia atendido nada menos do que dez baleados ao longo de 12 horas. Repetia, como se ele próprio não acreditasse: dez baleados. Entre lesões superficiais e lesões muito graves, dez pessoas haviam recebido tiros. “Eu me sinto como se estivesse em uma guerra”, dizia. Estávamos, todos, ainda perplexos com a violência sofrida por outro colega médico, seqüestrado, em seu próprio carro, que passou horas de terror, sob mira de armas de marginais desprovidos de qualquer sentimento mais nobre, em um canavial.
A verdade é que estamos mesmo em guerra. E é guerra das piores, das mais cruéis. Vidas e vidas têm sido ceifadas sem a mínima razão. Violência por violência, por maldade, por revolta, por furor, por drogas, por desamor. Qualquer discussão, muitas vezes por motivos banais, leva a violentas agressões, dor, sofrimento, morte...
Perdeu-se, completamente, o amor ao próximo. O “próximo” é um inimigo a ser agredido, humilhado e até eliminado fisicamente. É uma guerra cruel e ainda mais perigosa do que as guerras formais (se é que existem guerras formais), pois aqui não se conhece o “inimigo”. E como pode ser qualquer um, ficamos em constante vigília, com o medo e a tensão à flor da pele. Este é o clima emocional que vivemos em nossas cidades, nessa época de “modernidade”, de “globalização”.
Assistimos, freqüentemente, a um “jogo de empurra” das autoridades de diferentes níveis no sentido de definir responsabilidades quanto ao combate à violência. Não se chega a um acordo e, em época de eleições, cansamos de ouvir promessas de “soluções” para o problema da violência urbana. Passam as eleições e o “problema” não é resolvido. Pelo contrário, a violência tem batido todos os recordes e a insegurança nunca foi tão grande, não respeitando sequer locais onde se luta pela conservação da vida, como prontos-socorros e hospitais.
Na verdade, as promessas não são cumpridas porque as soluções são mais complexas, já que essa verdadeira guerra que estamos enfrentando é conseqüência da falta de amor ao próximo, do imediatismo consumista desenfreado, do uso de drogas, das perversas injustiças sociais e da falta de esperanças e perspectivas. As soluções dependem muito de vontade política e esforço dos administradores públicos, mas passam, principalmente, pelo crescimento interior das pessoas, de uma verdadeira revolução espiritual. Somente assim será possível chegar a um período de paz e harmonia entre as pessoas!
O autor, Isac Jorge Filho, é presidente do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo