Com a eleição do novo papa, Bento 16, não é difícil identificar os desafios que a Igreja vai ter de estar preparada para enfrentar. Serão os desafios que vêm de dentro e de fora do corpo eclesial. O papa pode ser novo, mas dois antigos problemas, a pedofilia e o celibato clerical têm constrangido e escandalizado a muitos católicos e não católicos que devem estar perguntando: como gente assim, de mente patológica, pode ser aceita como ministro da Igreja? Não seria melhor acabar com o voto do celibato? Devo confessar com sinceridade que esses fatos de pedofilia, na verdade, têm produzido constrangimento e escândalo entre todos os fiéis que acreditam na seriedade do celibato sacerdotal. A Igreja Católica, como mãe, sempre olhou com muita preocupação e seriedade a formação de seus futuros padres. Os bispos, após consulta mútua e ouvindo educadores e diretores de seminários, pesquisaram sobre tudo o que pudesse contribuir para a maior solidez e eficácia da formação sacerdotal. Dentro do processo educativo, preocuparam-se muito, e de modo especial, com a formação humano-afetiva. Valeram-se da colaboração de pedagogos, psicólogos e especialistas de comprovada idoneidade, competência e orientação cristã.
Pode-se perceber a seriedade e o empenho com que se faz a preparação do futuro padre. Contudo, pode haver casos de negligência da formação e falta de critério na seleção, fatores que, ao lado de influências de um ambiente erotizante e permissivo, poderão comprometer o futuro ministério desses vocacionados. Desde a revolução sexual dos anos 60, a permissividade, sob a capa de modernidade, abriu as comportas para todas as formas de pornografia, inclusive a prostituição infantil, alimentada por vídeos eróticos e pelos recursos da Internet. Quanto à relação celibato-abusos sexuais, dizem as pesquisas que, mantidas as proporções numéricas, há mais não-celibatários pedófilos do que celibatários pedófilos. A pedofilia, desvio psiquiátrico grave, pode-se manifestar em qualquer situação, tanto no celibato quanto em pessoas casadas. E nem é privilégio de uma ou outra ordem religiosa. A Igreja, que sempre andou na contramão desta mentalidade, lamenta todos esses crimes, e mormente quando se trata de seus padres. De outro lado, reconhece que esses infelizes constituem exceções no meio da maioria que permanece fiel à consagração.
Devemos convir, também, que é maior a responsabilidade daqueles que têm a missão de levar os outros a Deus. A quem muito foi dado, muito será cobrado. Mas ninguém, senão Deus, pode avaliar o grau de culpa de cada um. O casamento é um sacramento instituído e abençoado por Deus. Proibir o casamento é ir contra a vontade de Deus. Reconhecer a santidade do casamento é diferente de dizer que todas as pessoas são obrigadas a casar. Aqueles que se sentem chamados ao casamento, não devem ser padres. Porque a vocação sacerdotal autêntica traz consigo, também, a vocação ao celibato, à entrega total de si a Deus.
A regra do celibato tem por finalidade ajudar as pessoas discernir melhor a sua vocação e não colocar obstáculos à vivência dessa mesma vocação. Se queremos percorrer dois ou mais caminhos ao mesmo tempo, acabaremos não percorrendo nenhum. Escolher é sinal de maturidade. É uma conquista, muito mais do que uma renúncia. A obra de Deus se realiza e permanece apesar de nossos erros, e essa é a maior prova de que a Igreja é mesmo divina, caso contrário, não teria sobrevivido a tantas tempestades internas e externas que a assolam em todos os tempos, incluindo o nosso. Lembramos, ainda, que a Igreja nunca negou o direito das pessoas se posicionarem, mas a crítica positiva é algo diferente da calúnia e difamação.
O autor, Gino Crês, é professor