“É preciso criar algum mecanismo que obrigue os bancos a investirem ao menos parte de seus lucros em produção, em geração de empregos, em geração de futuro.”
Apenas sete empresas, no Brasil, lucraram acima de R$1 bilhão no ano passado. Em contraposição, mais um banco acaba de anunciar lucro de R$1 bi apenas no primeiro trimestre de 2005. Não foi o primeiro e nem será o último. Os bancos brasileiros têm tido lucros absurdamente altos, sem que isto traga benefícios para a economia como um todo, pois, por mais incrível que pareça, os lucros fabulosos do sistema bancário não geram riqueza.
A primeira pergunta que nos fazemos é: por que os bancos lucram tanto? São mais eficientes? São melhor administrados? Descobriram a fórmula mágica que as demais empresas desconhecem? Não. Os lucros fabulosos auferidos por eles resultam dos juros estratosféricos que o governo federal oferece de bandeja, através do banco central e do risco zero nas operações. Por que risco zero? É simples. Os bancos só emprestam em situações em que não há risco. Emprestam para o governo, com retorno garantido. Emprestam para aposentados, com desconto em folha. Emprestam para funcionários públicos, também com desconto em folha salarial.
Ao bancos não emprestam mais para pequenas e médias empresas, como é usual em outros países e como acontecia no Brasil até há tempos atrás. Essas pequenas e médias empresas, as responsáveis pelo maior número de empregos, são aquelas que de fato fazem o país andar ou melhor, faziam, pois encontram-se em situação delicada.
Os pequenos e médios empresários brasileiros ficaram órfãos. Estão sem pai nem mãe. Os bancos não emprestam um tostão para eles. Uma das poucas fontes de financiamento para a indústria e o comércio, que é o BNDES, empresta só para os grandes e os gigantes, para os mesmos de sempre.
O que resta a esse pequeno empresário? Ele é obrigado a investir a sua poupança, a sua e a de sua família, vê-se na contingência de vender os seus bens para continuar operando e tentar sair do vermelho. O que é, sem dúvida, uma tarefa cada vez mais árdua na conjuntura atual.
Por que só os empresários têm que correr risco? Já está na hora de fazer alguma coisa para que os bancos também participem. Já é mais do que tempo de o Brasil parar de pensar com a cabeça de financista, que nada produz, e sim com a cabeça de empreendedor, aquele que dá emprego, aquele que corre risco, aquele que dá o sangue pelo país, já cada vez mais ralo e mais escasso. Faço um apelo às autoridades do governo: é preciso criar algum mecanismo que obrigue os bancos a investirem ao menos parte de seus lucros em produção, em geração de empregos, em geração de futuro.
Não há futuro para a população de um país onde só os bancos lucram! (O autor, Bebetto Haddad, é empresário e membro da Executiva Estadual do PMDB)