O que vemos em Bauru? Estamos muito preocupados? Ou não?
Vamos fazer uma viagem e dentro desta aventura irei comparar Bauru com dois grandes autores teatrais: de um lado estamos falando de emoção, entramos na Rússia e gritamos por Stanislavski, pedimos socorro para ele, gritamos bem forte com muita emoção, pois do jeito que as coisas andam em Bauru, principalmente em uma apresentação que recentemente eu assisti, não me resta outra alternativa senão chamar pelo Stanislavski. Por isso, usando da retórica e nunca se esquecendo da arte poética, vamos todos com muita razão e muita consciência prestar bem atenção no que fazemos, como fazemos, e o que realmente queremos passar para a platéia de uma cidade que não está muito acostumada com teatro, mas sim com celebridades de grandes emissoras!
Eu trabalho diariamente para primeiro tentar preparar o público para a importância do teatro a valorização de um trabalho realmente cênico. Mas por outro lado eu enxergo o descaso de alguns trabalhos que me envergonha a alma, e juro que se Brecht estivesse aqui em Bauru ele perderia a “ razão” e diria: parem com isso!
Tanto Brecht quanto Helene Weigel queriam o ator consciente, ativo, participante, tomando posição diante dos fatos para que os espectadores também tomassem. O ator perde a espontaniedade quando decora uma palavra depois da outra. Isso não é o que acontece normalmente quando falamos. Quando falo, por exemplo: eu gosto de teatro de verdade e quero ver teatro de verdade, num primeiro momento surge uma imagem em minha cabeça, que é o processo normal do ser humano. Pela imagem eu crio um som que já é uma codificação e, na medida em que decoro a palavra “eu gosto de teatro de verdade e quero ver teatro de verdade", eu fiquei apenas no som, sem criar uma imagem, que me fornece uma verdade interior, que é o fato de eu gostar de “teatro de verdade”. Por favor, não estou eu fazendo nenhum solilóquio, mas sim pedindo que todos tenham uma perspectiva visual, que os atores tenham uma perspectiva central, que se faça uma pesquisa teatral, por favor? Não épedir muito. Vejam: tem que fazer residência e se especializarem em algo, isso é claro e lógico e, digamos, muito coerente. Os atores devem estudar para fazer bem feito, saber o que significa incerteza epistemológica, é tão simples, mas as vezes falta noção do espaço, senso do ridículo etc etc etc.
Contudo, usando da razão ou da emoção, eu deixo aqui um recado do fundo da alma: vamos prestar atenção na prosódia, acento vocálico na dicção de um verso e na estrutura rítmica utilizada para valorizar o texto, sim, porque o texto é muito importante. A partir do momento que o ator aparece em cena é, de certa forma, colocado em um quadro semiológico e estético que faz uso dele dentro do universo dramático e fictício. Lugar de Onde se Vê, é muita responsabilidade, pensem nisso!
Huxley Ivens Pontes Luz de Pádua Cerqueira - ator, diretor e professor acadêmico de artes cênicas - RG 28.739.204-1