08 de julho de 2026
Articulistas

Ópera-bufa e desgoverno


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A ópera-bufa é uma combinação de comédia, sátira e improviso. Olhando o quadro recente e atual do governo Lula, nada mais semelhante a esse gênero de ópera. O ministro da Comunicação, Luís Gushiken (PT), afirmou que o ministro da Coordenação-Política, Aldo Rebello (PC do B), deveria sair do governo. A reação de Rebello foi afirmar que o PT não se entende, não cede espaço para os aliados e sobra para ele. O senador Aloísio Mercadante (PT), que pretende disputar o governo de São Paulo e tem João Paulo Cunha (PT), ex-presidente da Câmara, como concorrente no partido e eventual candidato ao lugar de Rebello, saiu em defesa do atual ministro. Renan Calheiros (PMDB aliado), presidente do Senado, se alia a Mercadante, defende Rebello e critica o governo. O restante do PT se divide. José Dirceu, ministro-chefe da Casa Civil, que manipula para que as funções de Rebello não dêem resultados práticos, provavelmente se diverte com a fritura de Rebello feita pelo seu aliado, Luís Gushiken.

Outro aliado de Lula, do PT e do governo, João Pedro Stédile (MST), sai dizendo que o governo não se entende e que cada ministro joga como quer. Concentra seus ataques na área econômica (Palocci, ministro da Fazenda, Meirelles, presidente do Banco Central, Furlan, ministro do Desenvolvimento, e Rodrigues, ministro da Agricultura) e preserva Lula, como se este nada tivesse a ver com o que ocorre naquela área. O presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, sob fogo cerrado do PT, dos seus simpatizantes, da esquerda, dos empresários e dos economistas que são contra a atual taxa de juros, teve, nesta semana, o seu sigilo fiscal quebrado, suspeito de crime contra o sistema financeiro, evasão de divisas e enriquecimento incompatível com seus recursos (aumentou seu patrimônio, em nove anos, de cerca de US$ 2 milhões para mais de US$ 100 milhões), ainda quando não ocupava o atual cargo. Do outro lado, Lula e Palocci o defendem e o avalizam.

Do lado do PMDB aliado, o senador Romero Jucá, alçado a ministro da Previdência Social, tem contra si acusações extremamente graves, também anteriores à ocupação de seu atual posto, de tomada de empréstimos junto a bancos oficiais, não pagamento das dívidas e oferecimento de garantias inexistentes (fazendas). Lula continua afirmando que são somente denúncias e que nada foi apurado ainda. A outra facção do PMDB, não governista, reelegeu o seu presidente, deputado Michel Temer, que mesmo sem ter o controle total do partido, resiste às investidas de Lula e do PT para armarem palanques conjuntos nas próximas eleições. Com dois PMDBs, jogando em campos distintos, o governo não sabe o que fazer. E o PMDB é essencial para o projeto de reeleição de Lula.

Em meio a tudo isso, as lideranças do PT não conseguem controlar o que se passa no Congresso e o governo Lula vem colecionando derrotas no Legislativo. Essas derrotas são os recados dos partidos aliados para que o PT divida o poder, ao mesmo tempo em que o PT pretende reconcentrar ainda mais o poder. Aliás, a eleição de Severino Cavalcanti (PP) para presidente da Câmara já tinha sido fruto da própria divisão do PT, que se apresentou para a disputa com dois candidatos, fato único na história do partido.

A perda de governabilidade do País somente não é completa porque os líderes mais lúcidos, de todos os partidos, mas principalmente da oposição, quando percebem que a situação está fugindo do controle, fazem valer suas posições em nome do País. Lula, que havia garantido que daria um exemplo de como governar o País com o que ele considera a sua principal qualidade, o poder de negociação, não exerce essa sua suposta qualidade e está cada dia mais longe do governo, que fica com o José Dirceu e o Palocci. O presidente prefere viajar, fazer articulações internacionais, discursar em eventos, provocar ciúmes em Kirchner e na Argentina, irritar Washington e Israel com a declaração final da Cúpula América do Sul - Países Árabes. O ministro Celso Amorim, das Relações Exteriores, em meio a questionamentos sobre termos da declaração, disse que cada um entenda como quiser. Resumo da ópera: a gran finale é uma incógnita.

O autor, Gabriel Ferrato, é professor do Instituto de Economia da Unicamp