10 de julho de 2026
Geral

Pesquisa revela falta de preparo a professores para falar sobre drogas

Ricardo Santana
| Tempo de leitura: 4 min

Pesquisa acadêmica, concluída no final do ano passado, revela que os professores de biologia e ciências da rede estadual de ensino de Bauru sentem-se despreparados para abordar o assunto drogas com os estudantes adolescentes. Os docentes responderam, através de questionário, que seus conhecimentos sobre o assunto são insuficientes e que têm medo de sofrer retaliação dos alunos e seus familiares, de estudantes usuários de drogas e até traficantes infiltrados nos estabelecimentos de ensino.

A pesquisa foi elaborada por Edson Cardia no curso de pós-graduação da Faculdade de Ciências da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru. Os resultados baseiam-se em questionários respondidos espontaneamente por professores das duas disciplinas sem revelar identidade.

Dos 110 questionários enviados a 27 escolas estaduais, 34 foram entregues ao pesquisador preenchidos. Um dos relatos, destacado na pesquisa, sintetiza a gravidade do problema: “Infelizmente, o assunto (drogas) é pouco discutido aqui. Temos inúmeros casos na escola, porém pouca discussão sobre eles. Infelizmente, fazemos vistas grossas para eles”, conta um dos docentes.

O secretário geral do Sindicato dos Especialistas no Magistério da Educação no Estado de São Paulo (Udemo), Francisco Poli, disse à reportagem, há três semanas, que a violência é atualmente o principal problema da escola pública estadual.

Por 12 anos, Cardia foi titular da Delegacia de Investigações sobre Entorpecentes (Dise) em Bauru. Agora, como pesquisador, ele avalia que a violência na rede estadual está intimamente ligada às drogas. Na opinião dele, os livros didáticos são um desastre quando abordam o tema.

Um dos problemas freqüentes no material didático, segundo Cardia, é a maneira como as drogas são classificadas. Ele entende que o ponto central da questão é a dependência que os entorpecentes provocam - e não se são drogas leves ou pesadas. Entre as distorções apontadas pelo pesquisador, é que alguns professores classificam os entorpecentes como perigosos e fascinantes.

Mas Cardia afirma que há problemas maiores, como a classificação de drogas como indiferentes. “Se agem no sistema nervoso central, não podem jamais ser indiferentes”, contesta.

Nos questionários, os professores listaram diversos fatores para justificar a maneira que abordam ou deixam de abordar o tema drogas em sala de aula. Os principais são: pouco tempo disponível, falta de interesse, constragimento do professor, presença de alunos usuários de droga, estudantes que revelam simpatia pela droga e conhecimento limitado.

Cardia diz que alunos usuários de droga pedem informações a educadores para se livrarem dos efeitos indesejados - entre os mais comuns estão dor de cabeça e perda da memória. O pesquisador avalia que os adolescentes não consideram o fator da dependência porque acreditam que a droga não fará parte de suas vidas.

“Alunos sabem mais”

A coordenadora pedagógica da escola estadual Stela Machado, na Vila Pacífico, Maria Cristina Vasconcellos Gonçalves, explica que muitos adolescentes dominam com mais propriedade e profundidade a questão das drogas do que os professores. Em contrapartida, Gonçalves, que é professora de biologia e ciências, diz que a base dos conhecimentos dos professores é teórica. “Vamos conversar com alguns deles, (alunos) que não são usuários, e eles dão aulas para a gente. Eles conhecem a droga e conhecem a forma como é usada. A distância do conhecimento deles para gente é muito grande.”

Assim como Gonçalves, o professor de biologia e ciências da escola estadual Ada Cariane Avalone, Antônio Miguel Garcia, o Toka, entende que parte do problema se concentra na família. “A família terceirizou a educação. Passou para a escola.” Ele acha que é fundamental o respaldo dos familiares para que o aluno percebe que há limites também na escola. Garcia diz que já viu aluno passando droga na escola.

Gonçalves diz que os familiares nem sempre são receptíveis por não terem informação. “Alguns também fazem vistas grossas porque é muito mais cômodo”, opina. Ela também aponta a falta, na escola, de profissionais como o psicólogo e pedagogo para uma abordagem correta do aluno usuário de droga.

Com experiência de 17 anos no magistério, ela aconselha que os professores busquem informações e façam leituras extras. A dissertação de mestrado sobre drogas proporcionou o tema para o doutorado de Cardia. Agora, ele inicia seus estudos com um projeto de capacitação de professores. Sua primeira incursão foi uma palestra sobre o tema no Colégio Técnico Industrial da Unesp-Bauru.