09 de julho de 2026
Bairros

Barracas mudam paisagem da Nações

Ricardo Santana
| Tempo de leitura: 3 min

Admirada como cartão-postal da cidade, a avenida Nações Unidas teve sua paisagem de prédios suntuosos alterada com a instalação de barracas de camping na margem da alça que dá acesso à rodovia Marechal Rondon, sentido Bauru-São Paulo.

Há três semanas, dividem espaço com o vaivém veloz do local a aposentada Helena Moralli e os filhos Oswaldo, 32 anos, e Aparecida Moralli, 37 anos. Paranaenses de Maringá, eles resolveram instalar as barracas sob árvores do local depois de tentarem a vida, sem sucesso, em São Paulo.

Antes, há três anos, a família saiu do Paraná para tentar trabalhar com reciclagem em Bauru. Sem residência fixa, os Moralli ganhavam a vida como catadores de papel até que, recentemente, resolveram ir para São Paulo, onde o carrinho em que levavam o material recolhido foi furtado junto com as panelas e o fogareiro.

Sem dinheiro, recorreram à caminhada e aos ônibus até conseguirem retornar a Bauru. Há três semanas, eles se dividem entre duas barracas fixadas com estacas ao lado da avenida Nações Unidas. Na de lona, a família dorme e guarda os pertences que lhe resta: poucas roupas, uma panela, um prato e uma lata, onde prepara o café. A outra, de camping, também serve para dormir.

Para piorar, as barracas apresentam furos, que tornam parca a proteção contra o vento. “Passamos apertado nos dias de frio e chuva da semana passada”, relata Oswaldo. Para ele, poucas pessoas conseguiriam viver nas condições que a família tem suportado.

Além da ausência de residência, a família conta com a pequena aposentadoria da mãe e doações em dinheiro e em alimentos obtidos de porta em porta. “Mas nem todas as portas se abrem por causa da indiferença das pessoas”, afirma Oswaldo, que, apesar de temeroso pelo futuro da família no local, diz sonhar em reconquistar um carrinho para voltar a trabalhar nas ruas de Bauru. “Espero que alguém nos ajude.”

Ontem, enquanto tentava pensar no futuro, os irmãos aguardavam o retorno da mãe, que havia ido à região central da cidade pedir dinheiro e alimentos. Até as 9h, horário em que a reportagem os encontrou, os Moralli não haviam ainda preparado o café. Não havia lenha para a fogueira.

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Ocupação de área pública é irregular

A alça de acesso à rodovia Marechal Rondon, ao lado da avenida Nações Unidas, é uma área verde da cidade, espaço que é proibida qualquer tipo de ocupação sem a autorização da prefeitura. E em áreas verdes, não é dada permissão para moradias. Por isso, a família Moralli está sujeita a ter de desarmar as barracas no local a qualquer momento.

Ao constatar a ocupação irregular de áreas da prefeitura, fiscais da Secretaria Municipal do Planejamento (Seplan) notificam os responsáveis e dão um prazo para que saiam do local, explica Ricardo Chamma, procurador da prefeitura. Em casos que envolvam situação de pobreza, como a da família que está acampada na área verde, a Secretaria Municipal do Bem-Estar Social (Sebes) e a Defesa Civil são acionadas para tentar encontrar uma solução consensual para o problema. “Mas se não sair, entramos com ação judicial”, frisa Chamma.

Porém, Bauru não tem política para abrigar sem-teto. “Neste caso de moradia, o que podemos fazer é encaminhar para o Albergue Noturno por uns dias até encontrarem, por meios próprios, um lugar para morar ou retornar de onde vieram”, ressalta Álvaro de Brito, coordenador da Defesa Civil. Ele afirma que não há terreno público para abrigar sem-teto até porque uma medida semelhante contribuiria para a formação de mais favelas.

Ieda Rodrigues