Quando morávamos no Jardim da Grama, um pequenino mosquito veio do lixo depositado no terreno em frente, picou o meu filho querido e mudou toda a nossa vida para um dia-a-dia de incertezas, sofrimento, doenças e, agora, de morte e uma saudade sem igual. Nós nem tínhamos cachorro e não jogávamos lixo no tal terreno. O lixeiro passava três vezes por semana e não havia motivo para que meus vizinhos da rua Laudelino Soares e adjacências, além de uns caminhões de entulho vindos sei lá de onde, despejassem toda sorte de porcarias por ali.
De material de construção e móveis de escritório a lixo orgânico, roupas velhas e bichos mortos eram encontrados por toda extensão do lugar e na erosão por onde corriam esgotos e um córrego imundo, cheio de caramujos africanos e mau cheiro insuportável. O curtume antigo, todo depredado, cheio de água parada e mais lixo, também dava até medo a quem passava em frente.
Parecia diversão de domingo, famílias inteiras irem unidas jogar alguma coisa no local. Sem falar que, durante a semana, atravessavam o terreno e a linha do trem para ir ao outro bairro, onde havia escolas.
Quando me mudei para lá, pedia às pessoas que parassem com essa prática e o que recebi foi chuva de ameaças e grosserias de pessoas que não eram miseráveis, não eram catadores - que se diz que recolhem uns recicláveis e jogam o resto em qualquer lugar, mas os vizinhos. Um dia, recolhi 6 sacos de 100 litros de tranqueiras, que estavam jogadas na entrada do terreno e coloquei para o lixeiro levar. Noutro, chamei bombeiros para apagar incêndio no mato de lá, que quase atingia casas. Noutro, chamei a Regional para retirar um cavalinho morto. E assim por diante.
Fui reclamar do terreno, fui a uma rádio e só vi que começaram a chegar caminhões de pedras e tratores, quando a erosão se abriu mais e quase desabou a linha do trem. Mas o lixo continuou por lá.
É daquela região o foco principal da doença (leishmaniose) e a maioria dos que contraíram, tenham certeza, passava sempre por ali e é lá que a batalha deve ser acirrada. Junto ao brechó de todo tipo de lixo e tranqueiras, está sendo acrescentado um de doenças diversas, que são graves e matam.
Ana Maria Lellis Krupelis - RG 5.706.855-0