09 de julho de 2026
Cultura

Olhares cruzados

Thaís da Silveira
| Tempo de leitura: 4 min

Sampaca Cannibal Experience. A mistura usada na composição do nome (“Sam”, de São Paulo, e “Paca”, região do sul da França onde está Marselha, formada por Provence, Alpes e Cote d’Azur) reflete a mistura de ritmos e influências que caracteriza o som da banda, que se apresenta hoje no ginásio do Serviço Social do Comércio (Sesc), em Bauru.

Basicamente, trata-se de três músicos brasileiros e três da França que se juntaram para fazer um som. Mas o projeto vai além. A banda Sampaca Cannibal Experience é parte musical do Projeto Sampaca, Regards Croisés (Olhares Cruzados), idealizado por Armando Coxe, diretor artístico da francesa Cocotte Musique. A idéia é aproximar, através de manifestações artísticas, a diversidade étnica de São Paulo e a da região da Paca. Surgiu a partir das semelhanças que ele estabeleceu entre Marselha, na França, e a Capital paulista. Elementos como contradição e mistura de povos foram os principais para que ele traçasse a comparação.

No show, os brasileiros Guga Stroeter (vibrafone), Pepe Cisneros (teclados e percussão) e San Issobe (bateria e programação), da banda Hbtronix, sobem ao palco com os franceses Laurent Pernice (baixo e programação), Christina Rosmini (voz) e Jeremy Demesmacker (flauta) para oferecer ao público uma mistura de ritmos.

Assim, maracatu, toada, moda de viola e outros ritmos brasileiros dividem espaço com canções francesas, espanholas e até árabes (cujas culturas estão bastante presentes na região de Paca). A mistura tem também marcante pitada eletrônica.

Bauru está entre as quatro cidades em que o projeto será apresentado no País (Santo André, São Paulo e Araraquara). Depois, o grupo parte para a etapa francesa e se apresentam em Marselha.

“É uma mistura especial. O que temos feito é misturar as influências musicais presentes em Marselha e em São Paulo, que são duas cidades cosmopolitas. É uma intenção de encontro de todas as músicas que formam a música de marselha, como a árabe e a espanhola, e de todas as músicas que formam a música brasileira”, explica a francesa Christina, em entrevista por telefone ao JC Cultura.

Ela explica que as influências extravazam o geográfico já que, por exemplo, o flautista Jeremy é belga e estudou percussão na África. Ela, por sua vez, é francesa mas a mãe é de Andaluzia e o pai é da Córsega, região com forte influência árabe e italiana. Já o percussionista Pepe é formado em Cuba.

Apesar das inúmeras referências, Christina afirma que a mistura foi natural. “Logo no primeiro encontro tivemos evidências de ritmos brasileiros que poderiam ser misturados a canções espanholas ou árabes. São misturas evidentes e agradáveis”, conta.

“Quando nos encontramos pela primeira vez em Marselha, os músicos brasileiros já haviam feito bases e eu cantei imediatamente uma canção da Córsega, de maneira bastante lógica e sem pensar”, acrescenta.

No repertório do show de hoje, estão músicas como “Toada de viola”, “Igexá eletrônico”, “Francesa francesinha”, “Opanigé”, “Atravessei o mar a nado” (folclore brasileiro), “Le petit balle” e “La Tarara” (canção espanhola). Vale conferir.

• Serviço

Banda Sampaca Cannibal Experience hoje, às 21h30, no ginásio do Sesc. Os ingressos custam R$ 6,00 e R$ 3,00 (matriculados, estudantes e maiores de 60 anos). O workhop gratuito comandado por Guga Stroeter será realizado amanhã, às 15h. O Sesc fica na avenida Aureliano Cardia, 6-71. Outras informações podem ser obtidas pelo telefone (14) 3235-1750.

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O projeto

O Projeto Sampaca Regards Croisés (Olhares Cruzados) é não apenas um intercâmbio musical, mas também fotográfico e radiofônico. A gênese está um evento realizado em São Paulo, em 2001, do qual participaram vários franceses. Foi a primeira visita de Armando Coxe, da Cocotte Musique, à cidade e ele teve a oportunidade de conhecer músicos como Guga Stroeter.

A parte musical começou com um encontro de 15 dias em Marselha. Em março deste ano, foi a vez dos músicos franceses passarem uma temporada em São Paulo. Recentemente, começaram as apresentações, que a partir da semana que vem serão feitas na França.

Na vertente radiofônica, a jornalista Patrícia Palumbo passou 15 dias na França trabalhando em uma rádio local e, na volta, trouxe um radialista francês para conhecer a realidade de São Paulo.

Na fotografia, as trocas ocorreram entre a francesa Muriel Giambino, que registrou a comunidade japonesa em São Paulo, e o paulistano Marcus Iizuca, que fotografou imigrantes africanos em Marselha. As 60 fotos que resultaram desse trabalho estão expostas até o dia 19 de junho no Conjunto Nacional, na Capital.