09 de julho de 2026
Pesca & Lazer

História de pescador: Chupa Ganso!!! Tarpon


| Tempo de leitura: 4 min

"Ainda me lembro de uma pescaria bastante curiosa que fiz em uma granja próxima ao mar do Jacaré. Logo cedo eu acordei e liguei para um antigo companheiro de pesca, Felipe, que abandonou as pescarias, dedicando-se à malhação. Logo cedo estava de pé para mais uma pescaria de tucunarés, a nossa preferida. Como eu havia acordado o Felipe muito cedo, ele fora dormindo no carro, com direito a travesseiro e lençol. Ao chegar no local, acordei Felipe que já havia até babado no travesseiro. Logo na entrada da granja, fomos recepcionados por um simpático caseiro.

- Bom dia, pescadores!!!

- Aqui dá peixe?

- Peixe?!!! Vocês nem imaginam!!!

De princípio não consegui saber se aquele sorriso era de gozação ou se era uma confirmação a minha pergunta.

- Em todo lugar aqui dá peixe! Mas cuidado para não entrar na água!

Pela primeira vez o caseiro falou com um ar de receio.

- Não se preocupe, não. A gente sabe nadar, e bem Comentou Felipe com um ar de gozação.

- Os gansos também sabem. Disse o caseiro.

Naquele momento eu olhei para Felipe e não entendemos o que o velho quis dizer. Será que aquela hora da manhã o caseiro já estaria bêbado?

Paramos de conversar e finalmente fomos pescar. Ao chegar na margem de um dos dois açudes, me encantei com a beleza; era um lago de água cristalina, onde conseguíamos ver claramente os peixes. No centro do lago nadavam tranqüilamente algumas dezenas de gansos. Gansos? Será que seriam aqueles que o caseiro havia falado? Mesmo sendo aqueles, ainda não conseguimos entender a frase: ‘Os gansos também sabem nadar...’

Matutamos um pouco, mas não decifrando o enigma, começamos a pescar. Logo no terceiro arremesso, eu peguei o primeiro tucunaré, com cerca de 1,2 Kg. Em seguida Felipe arrastou um belo exemplar de 3,5 Kg. Por volta do meio-dia já havíamos capturado ótimos troféus num total de 16 tucunas. Claro que cada um de nós ficou com um peixe: eu com um de 2,8 Kg e meu parceiro com um de 3,5 Kg. Por várias vezes o caseiro passou por nós sempre com um olhar atento e um pouco receoso, foi quando resolvemos perguntar o que ele quis dizer com aquela frase.

- Se eu contar, vocês não vão acreditar.

- Pode contar, a gente é pescador! Já ouvimos todo tipo de mentira!

Então o pescador nos contou que naquele lago havia um enorme tarpon de hábito assassino que tinha como prato preferido os gansos do local, mas que não hesitava em variar seu cardápio, uma vez que já havia devorado uma criança de oito anos.

Naquele momento, o sorriso carismático do caseiro deu lugar a suspiros e lágrimas, pois a criança era seu único filho. Embora eu tivesse ficado comovido com o relato do pobre homem, Felipe preferiu não acreditar e continuou a pescar bem próximo à margem do lago.

Ao entardecer, quando eu já estava desarmando a minha tralha, Felipe pediu que eu o auxiliasse, pois sua isca preferida havia ficado presa numa galhada submersa. Tentamos de todas as formas soltá-la, mas foram inúteis. Foi quando Felipe decidiu entrar na água para recuperar sua isca. Tentei alertá-lo para a história do tarpon gigante, porém, ele já estava bem próximo à galhada. De repente algo estranho começou a acontecer: ao redor de Felipe surgiram bolhas e em seguida, uma enorme barbatana emergiu rodeando o local.

O pânico aumentou quando vimos que aquela criatura monstruosa colocou sua cabeça para fora d'água, e que entre seu dentes ainda havia restos de penas e carne das suas últimas vítimas. Era algo difícil de descrever, até hoje não vi nada parecido. Foi quando, desesperado, Felipe começou a nadar em minha direção e o tarpon, ainda com a cabeça pra fora, passou a segui-lo, se aproximando cada vez mais. Eu sabia que em pouco tempo o peixe o alcançaria e a morte do meu amigo seria inevitável. Como num estalar de dedos, lembrei das preferências gastronômicas do bicho, porém naquele instante os gansos assustados fugiram para longe. E agora, o que fazer?

Como por milagre, lembrei que no carro havia ficado o travesseiro que trouxera de casa, o qual era feito de penas. Sem pensar duas vezes, rasguei uma parte para que as penas ficassem à mostra. Entrando na água, comecei a movimentar o travesseiro tentando chamar a atenção do predador. Por sorte, minha tentativa foi bem sucedida, o tarpon mudou de direção, voltando-se para o travesseiro, arrancando-o de minhas mãos e levando-o para o fundo do lago e desaparecendo logo em seguida.

Este fato jamais saiu da nossa memória. Felipe nunca mais quis voltar aquele lugar. Mas uma coisa é certa, sempre que encontramos Felipe, vemos que está com um travesseiro branco de penas, seu amuleto de sorte."

Saulo Marden é pescador de João Pessoa e contador de histórias