“A moda é uma síntese de tudo que nos cerca. Ela gira em torno da mecânica da alma: primeiro é preciso vestir a alma para depois vestir o corpo.” A opinião, do estilista Jum Nakao, traduz a preocupação de muitos profissionais da área em refletir sobre o comportamento e a cultura de moda no Brasil, em especial no Interior de São Paulo, considerado pólo em ascensão no que se refere à criação de estilos diferenciados em roupas e acessórios.
Integrante do São Paulo Fashion Week (SPFW) e responsável pelo figurino da minissérie “Hoje é Dia de Maria” , o estilista estimula a análise do conceito de moda, o papel do profissional da área e a sociedade enquanto consumidora de tendências.
Segundo Nakao, a moda vai além da identidade estética e concilia todas as artes. Em seu trabalho, procura combinar diversas formas de conhecimento e linguagem. “Sempre quis interagir com as pessoas e de alguma maneira transformar e ampliar a percepção delas”, diz.
Para isso, aposta em seu lado “multimídia”, sempre evidenciado em sua trajetória profissional. Nakao começou sua carreira no início dos anos 80, estudando eletrônica e computação. “Mas percebi que ainda havia uma distância muito grande para o ser humano. Aí pensei: tenho que trabalhar com moda, e começei a garimpar informação”, revela.
O estilista resolveu pesquisar sobre jóias e fazer roupas sobre medidas em uma alfaitaria. Se matriculou na Coordenação Industrial Têxtil (CIT) em 1984 e, em 1988, em artes plásticas na Faculdade Armando Álvares Penteado (Faap). Além disso, cursou moda e estilo no Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac) e na École Berçot, em Paris. Diretor da marca Vivavida e dono de um ateliê em São Paulo, ele afirma estar em constante pesquisa sobre cultura e informação. “É fundamental lidar com moda num aspecto muito mais amplo”, ressalta.
Nakao explica que a criação de moda está diretamente ligada à questão da identidade do estilista ou profissional da área. “Para ser autor e dar alma a uma obra ou marca, é necessário estar conectado à própria alma e vocação”, diz. Segundo o estilista, mais do que vestir, a moda deve transmitir que a roupa não é objeto, mas uma extensão do corpo. Para tanto, afirma ele, é importante ampliar as possibilidades de quem trabalha nessa área.
“Muitas pessoas entram achando que a moda é algo superficial e que se baseia apenas em imagem e glamour. O profissional tem que mergulhar em profundidade para fazer um trabalho consistente”, opina Nakao.
Figurino
É justamente baseado em sua própria experiência que o estilista faz essa análise. Ano passado, mergulhou em um longo processo de criação - envolvendo 700 horas de trabalho e cerca de 150 profissionais - na elaboração de requintadas roupas de papel vegetal que foram apresentadas no SPFW. Caracterizadas como bonecos playmobil, as modelos rasgaram os figurinos no final do desfile.
“A idéia era construir o invisível. Fazer com que as pessoas se distanciem da realidade para enxergar a realidade”, explica Nakao. Assim, ele apostou em elementos lúdicos, como o papel, para mostrar o deslumbramento e o caos.
Todas as etapas de criação e confecção, desde a rotina no ateliê, provas das roupas, ensaio e desfile, foram documentadas e resultaram no livro e DVD “A Costura do Invisível”, de Nakao.
O vídeo, apresentado durante o Senac Fashion Day, reforçou uma análise crítica da moda. “Tudo o que é apresentado tem que ser codificado, transformado e lapidado para cada indivíduo, dentro do seu mundo próprio. Quando há sintonia em torno de uma identidade, tudo flui naturalmente e o artista se torna receptível ao mundo”, destaca.
Potência
Por meio de seu trabalho, Nakao faz questão de afirmar a riqueza cultural brasileira e a importância da moda nacional no Exterior. “O mundo olha para nós de forma muito positiva. Existe uma visão estereotipada do que é o Brasil, que vai além do Carnaval. O País ainda não explora todo seu potencial”, opina.
Segundo ele, a mistura de culturas existentes no Brasil é peça fundamental para o universo da criação. “Se as pessoas tiverem uma percepção mais profunda e menos fútil do que pode ser moda, vamos estar construindo no País uma potência de moda que nós já temos”, defende.
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Magia
A ludicidade sempre esteve presente na criação do estilista Jum Nakao. Além da criação das roupas feitas em papel vegetal, o público pôde conferir toda a riqueza de seu trabalho no figurino da minissérie “Hoje é Dia de Maria”, exibida no início deste ano na Globo.
Inspirado na pureza da protagonista, Maria, que é almadiçoada e perde a infância, Nakao produziu toda a corte real utilizando recursos de artes plásticas, criação e confecção. “Maria não poderia perder a pureza e teria que ter a conotação pequena. Para isso, criei seres de três metros e meio. Desenhei toda a corte com contornos e silhuetas que eram uma mímese entre nobreza e insetos”, conta.
Os personagens foram confeccionados em uma estrutura especial, que priorizava brilho e textura, conta Nakao. Para isso, utilizou o papel como matéria-prima, além de objetos amassados, pó de ouro, tinta e telas metálicas. As figuras animadas se misturaram aos atores para garantir o aspecto fantástico o cenário. “Busquei representar a magia, que está no olhar e faz com que o mundo tenha sentido”, frisa Nakao.