Admirei-me, há algumas semanas, com a quantidade de cartas de pessoas indignadas com a falta de civilidade de pessoas que não recolhem das ruas as fezes de seus cães. Estão cobertos de razão. Contra atitudes incivilizadas, de qualquer espécie, falta mais ação e menos impunidade. A educação ambiental desde a tenra idade também resolve.
Mas, admirei-me também com outra coisa. Por que as pessoas não têm a mesma veemência e capacidade de indignação em se tratando de sofrimento alheio, de qualquer ser vivo?
Já que o centro da discussão foram os cachorros, vamos falar deles. Que maravilha seria se houvesse uma avalanche de cartas indignadas contra o torpe hábito de manter cães presos a correntes ou confinados em cubículos ou canis o dia todo. Cães solitários que só servem para cuidar de casas e estabelecimentos comerciais de humanos, brutalizados por donos insensíveis, mantidos afastados de qualquer tipo de convivência. Cães que são vendidos em pet-shops, tirados de sua mãe com um mês de idade, confinados, dia e noite, em pequenas jaulas até serem comprados; cães que sofrem o abominável e repulsivo hábito de terem a cauda e as orelhas cortadas, aliás, costume que já foi abolido em muitos países e que aqui é mantido apenas porque é um comércio que dá lucro, além da ignorância, vaidade dos donos e manutenção de uma estética fútil.
Em se tratando de cães de grande porte, a lista de maus-tratos é infindável: abandono, rinha, agressões, adestramento violento, isolamento. Já os cães de pequeno porte são melhor tratados. E se parássemos de comprar cachorros em escala comercial e adotássemos os que estão abandonados e doentes?
Não custa nada sonhar, de utopia também se vive, que maravilha seria se houvesse muitas cartas falando do sofrimento dos coitados cavalos de carroça, pedindo aos vereadores uma regulamentação do uso do animal de tração no município, muitas cartas protestando contra a aberração e crueldade de manter pássaros em gaiolas, muitas cartas pedindo ao ministério público que agisse mais contra os crimes ambientais, para que a impunidade seja coisa do passado.
Assim como pessoas sensíveis e conscientes se horrorizaram com a matança dos gatos no bosque da comunidade, vamos nos indignar contra elementos que jogam lixo em lugares públicos e impróprios, que põem fogo em mato, árvores, terrenos e entulhos. Tais indivíduos não merecem pertencer a uma comunidade, precisam ser punidos rigorosamente.
Não entendo essa dificuldade de punição, porque a prova do crime é o próprio local ou terreno queimado. Se o dono do mesmo for responsabilizado, como ocorre com as multas de trânsito que são aplicadas sem dó nem piedade, ele cuidaria melhor de sua propriedade para que essas irregularidades não mais ocorressem. Mesmo quando o proprietário do veículo não é o responsável pela infração, a ele é imposta a multa, da qual pode se defender apontando o motorista infrator. Vamos nos indignar ao vermos árvores podadas drasticamente e cortadas por motivos fúteis e inconsistentes?
Vamos nos indignar, como Lilian Verge e outros (carta de 8-5-5), que protestaram contra a prática de atear fogo em terrenos, ou como a Fátima L. M. Schroeder, vice-presidente da eficiente ONG Naturae Vitae (carta de 12-5-5), e a Ana Sonia (carta de 12-5-5), ambas revoltadas com os cruéis atos humanos, ou como o Ramón A. Portal (carta de 26-5-5), que discorreu com muita coragem e lucidez sobre a leishmaniose e a miséria humana.
E se nos indignássemos contra os experimentos animais feitos em laboratórios, escolas e universidades? E também contra a pesca esportiva, os circos que utilizam animais, as horripilantes e bárbaras touradas, as provas de laço e os rodeios, a debicagem e o confinamento em gaiolas das aves para abate e produção de ovos, a castração, a descorna e a marcação do gado a ferro quente, procedimentos feitos sem anestesia, o tratamento cruel que envolve a criação e o abate de porcos, e, ainda, contra os abatedouros e os matadouros.
Vamos nos indignar veementemente e nunca mais permitir que um adulto agrida fisicamente uma criança, dentro ou fora de sua casa. Vamos nos indignar contra qualquer tipo de tortura, seja em adolescentes na Febem ou em adultos encarcerados. E, para resumir porque a lista é interminável, vamos realmente nos indignar com o sofrimento do outro, sempre que for imposto e praticado por ignorantes, insensíveis, gananciosos, fortes e poderosos.
Pedro de Souza Meira - RG. 27.849.708-1