11 de julho de 2026
Economia & Negócios

Ciesp: Bauru precisa de industrialização

Patrícia Zamboni
| Tempo de leitura: 5 min

Em visita a Bauru, o presidente do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp), Cláudio Vaz, afirmou que o fato de a cidade ter como diferencial o potencial logístico, e não um setor específico da economia que se sobressaia aos demais, deve ser encarado não como uma opção, e sim como uma boa alternativa para o processo de industrialização - que trará desenvolvimento.

Segundo ele, as diversas características positivas da cidade, como bons indicadores sociais e sua localização estratégica no centro do Estado, já não são mais suficientes para “fazerem sozinhas” o trabalho de atrair mais empresas e, conseqüentemente, mais arrecadação de impostos e desenvolvimento.

“É claro que a região de Bauru é um centro de logística extraordinário, mas é preciso aproveitar esse espaço para se industrializar ainda mais. O fato de não ter uma vocação é até bom. Aqui em Bauru temos centros de excelência na indústria gráfica, de plástico, de alimentação, e tudo isso mostra que a cidade tem um ambiente propício a uma industrialização de boa qualidade”, aponta Vaz.

Ele esteve em Bauru na última sexta-feira para participar do seminário “Potencial Logístico Regional Como Fator de Competitividade Econômica”, promovido pelo diretor regional do Ciesp, Ricardo Coube. O evento também contou com a participação do secretário estadual de Transportes, Dario Rais Lopes, e do secretário estadual de Ciência, Tecnologia, Turismo e Desenvolvimento Econômico, João Carlos de Souza Meirelles.

Na opinião do empresário, a industrialização baseada em um único setor pode até ser arriscada, já que sempre existe a possibilidade de contratempos e, diante de uma crise, a região toda acaba sofrendo. Portanto, a qualidade de centro logístico de Bauru deve ser utilizada para atrair mais indústrias.

“É a indústria que gera mais riquezas. Bauru tem indicadores sociais de muito boa qualidade, como o IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), bom nível de população em idade escolar estudando, tem baixa mortalidade infantil. Mas a arrecadação per capita de ICMS, por exemplo, é baixa, porque a cidade deveria ser mais industrializada”, ensina o presidente do Ciesp.

Questionado sobre o que é preciso fazer para que os índices positivos da cidade e seu potencial logístico traduzam-se em atração de investimentos, Cláudio Vaz cita a união entre a diretoria regional do Ciesp, poder público municipal, base industrial e associações comerciais da cidade. “Pelas suas próprias características, Bauru tem todas as condições de atrair investimentos. É preciso traçar estratégias para isso.”

Exportações

Balanço recente apresentado pela diretoria regional do Ciesp (conforme divulgado pelo JC) mostra que, das 550 empresas do setor industrial instaladas em Bauru - que empregam 21 mil trabalhadores -, apenas 30 exportam. Os principais clientes estão na América do Sul (80%), América do Norte (10%) e Europa (5%).

Entre os produtos da pauta bauruense de exportações estão cadernos, máquinas, baterias automotivas, carne bovina processada, suco em pó, confeitos, massa alimentícia, cintos, bolsas, utilidades plásticas, quadros escolares e outros.

“O número pequeno de empresas de Bauru que exportam mostra como é grande o potencial econômico/industrial a ser explorado. Isso precisa ser uma estratégia do município. Por geração espontânea, nada acontece. Só acontece aquilo que a gente planeja, age, corrige e atua novamente”, assinala Vaz.

Nos últimos meses, a Selic (taxa básica de juros da economia brasileira) tem registrado altas consecutivas, estando no momento em 19,75% ao ano. Figurando entre as mais altas do mundo, a Selic está entre os principais obstáculos para o crescimento apontados pelo setor produtivo.

Questionado se este seria o momento ideal para os empresários colocarem em campo a criatividade para encontrar saídas e alternativas - inclusive à exportação -, o presidente do Ciesp afirma que isso não basta.

“A criatividade empresarial é essencial, mas tem limites. Um momento de crise potencial como esse - pelo juro alto, câmbio baixo e pelos indicadores econômicos que mostram desaceleração da produção - é também uma oportunidade para as empresas se repensarem. Ao fazer isso, não significa pensar em deixar de exportar, porque isso é essencial. A exportação é aquilo que faz alguém concorrer no campo do inimigo. Se ele não tiver a capacidade de colocar seus produtos no Exterior, em um determinado momento do futuro esse concorrente vai chegar na casa dele.”

Durante as comemorações referentes ao Dia da Indústria, 25 de maio, em São Paulo, foi sugerida a instalação de um fórum para criar soluções para problemas estruturais que impedem o crescimento da indústria no Estado de São Paulo, além de propor inovações que tornem as empresas mais competitivas. Para Vaz, o futuro da indústria está ligado à velocidade das mudanças do mundo atual.

“Há dez anos, não estávamos acostumados com essa velocidade das mudanças. Só para dar um exemplo, nas grandes empresas do mundo 75% do faturamento vem de produtos lançados nos últimos três a quatro anos. Então, as empresas que estão baseadas em produtos antigos muitas vezes acabam se surpreendendo com a inovação que vem de fora”, observa.

Segundo o presidente do Ciesp, o fórum é de grande importância para o Interior do Estado, pois seu principal objetivo é trazer não apenas informação, mas também as condições para impulsionar as organizações industriais e seus produtos. “O que está acontecendo hoje (anteontem) aqui em Bauru é um exemplo disso, através da parceria entre o Ciesp e a universidade (Unesp).”

Sobre as perspectivas de crescimento para 2005 no setor, o presidente do Ciesp afirma que são mais moderadas em relação ao ano passado.

“Um longo período de juros altos e câmbio baixo cobra o seu preço em redução do nível de atividade econômica. É claro que não vamos ter uma recessão, mas vamos crescer menos do que em 2004. E vamos crescer de modo desigual. Alguns setores têm desempenho muito melhor do que outros, mas a média de crescimento é pequena”, finaliza.