08 de julho de 2026
Polícia

55% dos presos esperam trabalho

Ieda Rodrigues
| Tempo de leitura: 3 min

Cartão de ponto para bater, meta diária para atingir e salário no final do mês ajudam Ademir, condenado a 25 anos de prisão, a acreditar que está reconstruindo sua vida. Sem revelar seu sobrenome, ele conta que caiu no mundo do crime. Trabalhando há sete anos numa fábrica de jeans instalada dentro da Penitenciária 1 de Bauru, tem dinheiro guardado e espera arrumar emprego ou até abrir um pequeno negócio quando conquistar a liberdade. Mas ele faz parte da minoria dos presos. Dos mais de 12 mil detentos da região de Bauru, 55% não trabalham, segundo a Fundação para o Amparo do Preso (Funap).

Porém, a entidade avalia que mais do que emprego, o preso precisa de educação e profissionalização para voltar à vida na sociedade. Nas quatro unidades prisionais de Bauru, 52% dos detentos estão ociosos. Segundo a Funap, a maioria tem interesse em desenvolver uma atividade laborial. Se optar por trabalhar e conseguir vaga, o detento ganhará a liberdade mais cedo. Para cada três dias trabalhados, a lei de garante um dia de remissão de pena.

Mas as empresas que funcionam dentro dos presídios e as das áreas externas que contratam detentos não são suficientes para absorver toda a mão-de-obra. “Os que não trabalham passam o dia nos pavilhões ou fazendo artesanatos que são levados pelas visitas (familiares e amigos) para vender lá fora até surgir uma vaga”, explica José Carlos Pedroso, diretor da P1.

Ele ressalta que para trabalhar o preso precisa ter bom comportamento e aptidão para a função. Dos 1.043 detentos da P1 no mês passado, 529 estavam trabalhando e 133, estudando, segundo a Funap. Na P2, a situação é parecida, mas poderia ser diferente porque as unidades prisionais da região de Bauru têm 75% de espaço ainda disponível para instalação de empresas, segundo a Funap.

Já no Centro de Detenção Provisória (CDP), por se tratar de uma unidade de prisão temporária, os detentos não trabalham nem estudam. A exceção é o Instituto Penal Agrícola (IPA). Justamente por sua característica, que é o regime semi-aberto visando a reintegração do preso à sociedade, todos os reeducandos trabalham .

Na P1, são quatro empresas na área externas e outras cinco dentro do presídio. A maior delas é uma fábrica de jeans de Cafelândia, que traz as peças para P1 de Bauru onde são feitos pequenos acabamentos, lavagem e embalagem. “São duas mil peças por dia”, conta Gervásio Gonçalves da Conceição, encarregado-geral da empresa que emprega mais de 150 detentos da unidade.

Cada funcionário recebe um salário mínimo, que fica sob a guarda da direção do presídio. Para o empresariado, a principal vantagem de empregar presos, explica Conceição, é a isenção de encargos trabalhistas. Num galpão adaptado pela própria fábrica na P1, foram instalados equipamentos para o trabalho dos presos, que passam a jornada diária sob vigilância. É neste ambiente que Ademir trabalha há sete anos e já tem proposta de emprego quando sair da prisão. “Queremos que ele continue trabalhando aqui”, revela Luiz Carlos da Cruz, gerente da fábrica.

Ademir, que já cumpriu 22 anos da pena total de 25 anos por ter cometido 33 assaltos, ainda não decidiu se continua na fábrica ou não. Com a família em Nova Odessa, região de Campinas, ele revela que gostaria de atuar como estilista de calçados.

Reeducando do IPA, Francisco Alves de Sales está na expectativa de conseguir a liberdade condicional em breve, após ter cumprido pena por roubo. Com 66 anos, ele, que por vários anos trabalhou na cozinha de presídios, quer abrir uma lanchonete em sociedade com seu irmão, em São Paulo, onde está sua família.

Outro reeducando, que prefere não ter o nome divulgado, trabalha na Funap como jardineiro e é um dos que está estudando. “Neste tempo que fiquei preso terminei a 8.ª série e vou fazer o ensino médio”, diz .