Em que pese a onda do “ficar”, fenômeno comportamental que atinge os jovens desde os anos 80, abalando a estabilidade dos vínculos afetivos, o “namorar” está cada vez mais invadindo o mundo dos apaixonados. Viver uma relação séria, baseada em respeito, carinho, amizade, cumplicidade e - porque não, atração sexual -, ocupam lugar de destaque na lista dos desejos de grande parte dos jovens brasileiros.
Basta um rápido giro pelas principais baladas - redutos dos solteiros de plantão e ambiente propício do ‘ficar’ - de Bauru no último fim de semana para comprovar esse comportamento. Acompanhado de uma turma de amigos, no último sábado, o estudante Vinicius (preferiu não revelar o nome), 26 anos, se reúne na casa de um deles para tomar uns drinks e se aquecer para o agito.
Em clima descontraído, a turma dos “bolinhas” entra em uma famosa danceteria da cidade. Após uma rápida circulada, Vinicius “escolhe” (isso mesmo) uma bela e produzida moça para paquerar naquela noite. Após longos beijos e abraços - alguns mais afoitos - eles se despedem. Vinicius e sua “ficante” chegam a trocar telefone, mas ele não sabe se vai ligar para a moça no dia seguinte.
Alguém já viveu uma situação semelhante? A resposta provavelmente deve ser positiva, já que o “ficar” se tornou rotina na vida da maioria dos jovens e adultos. Talvez por esse motivo, deixou de ser novidade e está ocupando o posto de “fora de moda”.
Segundo o psicólogo José Luís Cremonesi, psicodramaticista e especialista em terapia de casais e família, apesar de estarem envolvidos no jogo de sedução que encanta o “ficar”, muitos homens e mulheres estão buscando um relacionamento afetivo sério, cujos ingredientes básicos já foram descritos anteriormente.
“Essas pessoas estão amadurecidas do ponto de vista psicológico. Talvez porque elas já vivenciaram outras experiências estejam querendo se ‘fixar’ apenas com uma pessoa. Estamos falando de maturação psicológica, da necessidade de ter uma companheira, uma amiga, um vínculo presente”, explica Cremonesi.
É o caso do estudante de administração Gabriel Cortez, 23 anos. Há cerca de um ano ele terminou uma relação de três anos. O fato, porém, reforçou seu desejo de viver um relacionamento estável. “Acho legal namorar por causa da relação e do carinho entre os dois. Já estou cansado de ‘ficar’”, diz.
Romântico assumido, Cortez é do tipo que manda flores, cartas e presentes à mulher amada. “Quando estou solteiro, não preciso dar satisfações e saio mais com meus amigos. Mas prefiro namorar”, diz. Com tantas “qualidades”, engana-se quem pensa que ele ainda está solteiro por opção.
“Sou exigente e quero uma mulher companheira e verdadeira. Talvez não tenha achado a pessoa certa”, diz Cortez. “Ou melhor, acho que a encontrei, mas nos conhecemos há apenas um mês...”, confessa, com um sorriso típico dos apaixonados.
Expectativa
Se depender de sua vontade, Cortez não passará o dia de hoje - o Dia dos Namorados - sozinho. “Pode ser que logo nosso ‘rolo’ vire namoro”, prevê. Quem ainda não teve a mesma sorte é o fotógrafo Ricardo Ursulino, 31 anos. Embora tenha namorado quatro vezes, ele conta que ainda não encontrou a companheira ideal. “Excesso de ciúmes, brigas e incompatibilidade de horários...”, detalha, ao explicar os motivos dos términos de seus relacionamentos.
Dono de uma personalidade tranqüila, Ursulino não gosta de freqüentar baladas, fato que, segundo ele, pode dificultar a aproximação com o sexo oposto. “Mas eu faço minha propaganda na turma de amigos”, brinca ele. “Estou em busca de uma mulher fiel, que não seja tão ciumenta e me respeite. Sonho em construir uma família”, revela.
Respeito, amor e fidelidade estão na lista de prioridades dos solteiros. Nesse quesito o fator beleza nem sempre é fundamental, apontam os rapazes. “Ela precisa ser companheira e verdadeira, não ficar fazendo joguinhos e ser fiel. Se for bonita, melhor ainda”, aponta o publicitário Alexandre (preferiu não revelar o sobrenome), 29 anos.
Solteiro há oito meses, desde que terminou um relacionamento de um ano, ele conta que espera encontrar uma namorada em breve. “Não estou procurando de forma desesperada, mas estou sempre aberto”, diz.