10 de julho de 2026
Bairros

Idade e fama definem nome dominante


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Sérgio Pais

Os técnicos da Secretaria de Planejamento (Seplan) insistem que o termo bairro deve ser utilizado apenas definir uma união de loteamentos - esta sim, a melhor definição para cada um dos “pedaços” de solo que fazem do mapa de Bauru um emaranhado de bairros.

Segundo listagem enviada pela própria Seplan, Bauru possui 410 loteamentos inscritos na prefeitura. Desse total, 316 foram registrados antes da lei municipal 2.339/82, que passou a exigir algumas diretrizes para implantação de novos loteamentos, como dotação de serviços básicos (energia, água), asfalto e equipamentos urbanos (escolas, postos de saúde).

A confusão entre as pessoas surge justamente porque, em alguns casos, um bairro da cidade realmente acaba formado por uma união de loteamentos. O titular da Seplan, Izidoro Schafranski Neto, lembrou que a própria população acaba dando nome ao bairro, a partir do momento que vários loteamentos se aglomeram e formam uma grande região, com uma denominação afim.

Esse é o caso do Altos da Cidade, que é constituído pela Vila Noemy, Jardim Mesquita, Vila Santa Clara, Vila Ester, entre outros. O Jardim Brasil é outro que se encaixa nessa particularidade, pois engloba, entre outros, o Jardim Luiggy, a Vila Maracy, a Vila Brunhari e a Vila Santa Lúcia.

Segundo a Seplan, um loteamento começa a surgir a partir do momento em que o proprietário de uma gleba procura a prefeitura para que seja executado o parcelamento do solo, transformando a área em loteamento, segundo as diretrizes da lei 2.339/82.

O próprio dono da gleba define como será chamado o loteamento, competindo à Seplan apenas a verificação em seus registros se já não existe denominação igual ou semelhante na cidade, uma vez que, em caso de coincidência de nomes, o cartório pode rejeitar seu registro.

A Seplan lembra que, antigamente, não havia tanto rigor neste controle, o que permitiu que na cidade existam loteamentos ou bairros com denominações bastante parecidas, seja no nome, seja na qualificação. É o caso das denominações “América” e “Ferraz”, para quais existem dois bairros - um definido como Jardim e outro como Vila.

Além disso, o ritmo de criação do novos loteamentos vai, naturalmente, perdendo força. Segundo dados da Seplan, no ano passado foram aprovados apenas quatro projetos, com a ressalva de que um dos casos (Distrito Industrial 1) o loteamento já existia há anos e foi apenas regularizado. Os outros loteamentos aprovados foram o Jardim Silvestre 2 (na região do Mary Dota) e os residenciais Spazio Verde e Sauípe (na zona sul).

Este ano, segundo Schafranski, nenhum “novo bairro” foi aprovado, apesar de existirem alguns loteamentos em fase de pré-aprovação e solicitação de diretrizes, num processo que vem sendo feito segundo o que determina a Lei de Zoneamento e o Plano Diretor em vigência.

“Tudo Vila Giunta”

Um caso exemplar da confusão que os verdadeiros nomes de bairros causa na população pode ser conferido ao se percorrer, do começo ao fim, a rua Bernardino de Campos, via que corta nada menos que 21 bairros da cidade (veja quadro na página 2), segundo a definição oficial desenhada no mapa fornecido pelo setor de Geoprocessamento do Departamento de Água e Esgoto (DAE).

No entanto, para vários moradores da região consultados pela reportagem, “é tudo Vila Giunta”. O bairro que empresta o nome para seus vizinhos é realmente um dos mais tradicionais da cidade, mas é menor que alguns de seus “encampados”, como o Jardim Brasília e o Jardim Faria.

Outra curiosidade no emaranhado de bairros que margeiam a rua Bernardino de Campos é que alguns deles são tão pequenos que sequer conseguem tomar uma quadra. Na altura da quadra 15 da Bernardino, por exemplo, nada menos que três bairros dividem um mísero quarteirão, que começa como Jardim Aracy, tem uma faixa central como Jardim Dalila e termina com a denominação de Vila Pelegrina.

O mecânico Joaquim Arsênio da Silva, 47 anos, está estabelecido com sua oficina há 30 anos na quadra 5 da rua Fortunato Resta (paralela à Bernardino) e não sabia que o bairro onde trabalha chama-se Jardim Aracy. “Para mim, sempre foi Vila Giunta”, diz, apresentando como prova de sua certeza o fato de que a conta de energia traz este nome no endereçamento.

Silva diz já “ter ouvido dizer” que a região era entrecortada de bairros, mas nunca soube exatamente onde cada um começava ou terminava. “Meu vizinho é um morador antigo daqui e numa conversa ele me contou sobre isso”, afirma.

Silva se referia ao aposentado Felício Antonio Aud, 80 anos, morador na região desde 1966, “quando só havia mato e muita gabiroba”. Aud conta que descobriu o nome verdadeiro do bairro onde construiu sua casa ao ler a escritura do imóvel. “Conheço (o fato de morar no Jardim Aracy) desde quando me mudei para cá. Mas ninguém sabe e todos dizem que é Vila Giunta”, comenta.

O aposentado se referia a pessoas como a dona de casa Maria José Rosseto, 77 anos, moradora na rua Ângelo de Moraes, também paralela à Bernardino de Campos. Apesar de residirem no mesmo quarteirão, cada um vive em bairros diferentes: o primeiro no Jardim Aracy, a segunda na Vila Pelegrina.

A dona de casa, porém, recorre a diversas correspondências (conta de luz e carta do banco) para provar que, na verdade, sempre morou na Vila Giunta. “Estou há 12 aqui e todo mundo conhece o bairro como Vila Giunta”, diz Rosseto. “Esta é a primeira vez que ouço falar da Vila Pelegrina”, completa.