Com título de doutora e bagagem profissional conquistada em 35 anos de vivência pedagógica, a secretária municipal de Educação, Ana Maria Daibem, aceitou o desafio de popularizar o ensino de qualidade em Bauru. Na opinião dela, a tarefa é extensiva a todos os professores da rede pública, imbuídos da responsabilidade de proporcionar educação com tanta ou mais qualidade que a ofertada aos alunos de classes elitizadas.
A meta não foi estabelecida por ela, mas pelo contexto socioeconômico. Diferentemente dos estudantes abastados, quem está matriculado na rede pública tem menos chance de buscar complemento educacional fora da escola. A realidade do ensino público, no entanto, traz ainda outras “provocaçõesâ€. A formação continuada dos professores é uma delas.
Em resposta, a promoção de cursos, palestras, grupos de estudo tornou-se uma das prioridades da gestão de Daibem, que também é professora da Universidade Estadual Paulista (Unesp). A seguir, os principais trechos da entrevista concedida por ela à reportagem.
Jornal da Cidade - Atualmente a escola assume outras atribuições além de ensino? Ana Maria Daibem - A escola, enquanto instituição inserida dentro da sociedade, acaba tendo que, muitas vezes, responder a questões mais imediatas, emergenciais. Exemplo: merenda escolar. Se nós tivéssemos um padrão de remuneração, empregabilidade, condição de vida onde todo brasileiro tivesse salário decente, tivesse à mesa toda a alimentação básica para viver com dignidade, a escola não precisaria suprir merenda escolar.
JC - A situação pode comprometer projetos pedagógicos? Daibem - Em toda instituição existem atividades-fins e atividades-meios. Merenda escolar não é atividade-fim do sistema educacional, mas acaba sendo um meio necessário, até para dar condições para que a finalidade de educação, de apropriação de cultura, aconteça. A gente sabe que criança com fome não terá as condições ideais para se desenvolver. Agora, atrapalha do ponto de vista pedagógico? Eu diria que envolve a equipe escolar em atividades que, se ela não precisasse cuidar, talvez estivesse tratando de questões específicas pedagógicas, com mais tempo e mais condições. Agora, dá para ignorar essa necessidade? Não dá. Então, temos de conviver com ela e tentar articular tudo isso.
JC - O sistema educacional e de formação dos educadores já estiveram mais precários que os atuais? Daibem - É comum ouvirmos pessoas das gerações mais antigas dizerem que, naquele tempo, a escola era melhor, que os professores falavam corretamente, que escreviam melhor, etc. Mas não podemos perder de vista quem eram os professores e quem eram os alunos naquele tempo - um Brasil da década de 20, de 30, do século passado, por exemplo.
JC - A escola não era tão abrangente. Daibem - Exato. Era uma escola seletiva, era a elite. Exemplo: a elite bauruense estudava na escola estadual Ernesto Monte. A elite do ponto de vista econômico, hoje, está no Ernesto Monte? Não, não está. A gente não pode perder de vista que aquela qualidade saudosista, à qual as pessoas se referem, era uma qualidade de poucos para poucos.
JC - E hoje? Daibem - Hoje, eu vejo a educação quantitativamente crescendo, no sentido de atender a um volume muito mais significativo da população. Aí está o processo de democratização. Então, começamos a lidar com o binômio quantidade e qualidade. À primeira vista fica chocante a gente ver que hoje a quantidade aumentou, mas que nós não encontramos a qualidade de antes. Mas eu quero crer, que mesmo não encontrando hoje a qualidade de ontem, se bem trabalhado, é um processo que, ao longo do tempo, significará avanço qualitativo da sociedade brasileira. Eu garanto uma sociedade desenvolvida quando eu tenho maior número de pessoas com acesso aos bens culturais, materiais, simbólicos. Eu prefiro isto a uma sociedade altamente elitizada, onde poucos têm a melhor qualidade do mundo e outros não têm nada. E aí é que está o nosso compromisso com a escola pública. Quem faz isso é a escola pública.
JC - O professor da rede pública é mais desafiado? Daibem - Talvez tenhamos um processo de formação de professor ainda bastante arraigado a um padrão elitista de educação e que não se volta para uma educação de natureza mais popular. Quando eu quero dizer educação popular eu não quero dizer educação com menos qualidade. Eu entendo que a educação popular tem de ter tanto quanto, se não mais qualidade do que uma educação elitizada. Até porque, se alguma coisa a escola não fizer para o aluno nos colégios particulares, o meio em que ele vive completa. Nas classes populares, o que a escola não fizer, possivelmente a família e o meio dele não vão fazer. Então, o compromisso, o desafio de responder à diversidade das classes populares com qualidade, sem dúvida é um chamado especial aos professores das escolas públicas.
JC - Quais os principais desafios da secretaria nesta gestão? Daibem - Primeiro, um amplo processo de formação continuada de professores, a partir de todo um trabalho de diagnóstico, de identificação de necessidades dos professores. Nós fizemos um primeiro levantamento, em fevereiro. Já percebemos, a partir da discussão que os coletivos fizeram em suas escolas, quais são suas necessidades, expectativas.
JC - Qual a principal demanda? Daibem - É a formação do professor do ponto de vista tecno-científico, de dar conta de desenvolver o conhecimento, a cultura na escola. Ou seja, programas, por exemplo, que dêem toda a fundamentação sobre o ensino da língua portuguesa, da matemática, das áreas de conhecimento. É o desenvolvimento da autonomia. Você só se fortalece no coletivo, se tiver convicção das suas particularidades. Às vezes, você não partilha (questões com os colegas e superiores) por insegurança de suas próprias convicções.
JC - Então os professores apontaram fragilidade de formação? Daibem - Mesmo que (a formação) tivesse sido perfeita, como a sociedade é dinâmica, em qualquer área não dá para você imaginar um profissional que, porque terminou a faculdade, não precise estudar mais. Mesmo que ele tenha feito o melhor curso do mundo, ele precisa continuar estudando. A formação é um grande desafio. É uma das nossas propostas-eixo.
JC - E como ela será implementada? Daibem - “N†alternativas de formação, que passam por cursos, palestras, grupos de estudo, participação em eventos. Já estão acontecendo.
JC - E o estatuto do magistério? Daibem - É o segundo grande compromisso. Articulado ao estatuto do magistério, nós estamos cuidando de uma outra questão, que em termos de prática democrática em educação é fundamental: o Conselho Municipal de Educação. A composição do novo conselho, que tem a gestão prevista de 2004 a 2006, foi publicada em julho de 2004. Mas chegou ao final da última gestão (do prefeito) e ele ainda não tinha tomado posse. Reativamos.
JC - A educação inclusiva também é desafio? Daibem - A educação inclusiva é a grande linha desta gestão. É a educação de qualidade para todos, envolvendo as diferentes necessidades, especiais ou não. Ele (o aluno) é inclusivo não porque tem deficiência, mas porque esta gestão quer que ele seja trabalhado em todas as suas habilidades e competências. A rede municipal de Bauru tem mais de 50 anos. Até agora, do ponto de vista da educação especial, simplesmente todas as administrações ao longo da história do município contratavam professores para atuar em instituições que respondem por crianças com dificuldades especiais.
JC - Nesta gestão será diferente? Daibem - Nós continuamos mantendo esse serviço porque reconhecemos a importância. Porém, não podemos ignorar que, dos alunos da rede municipal, um grande contingente apresenta dificuldades. Não só do ponto de vista auditivo, visual, físico. Tem criança com dificuldade de aprendizagem. Até então, ela tem sido ignorada pelo sistema. Eles acabam sendo enquadrados como alunos que não rendem, que não aprendem e eram reprovados.
JC - E agora? Daibem - Agora nós estamos montando um sistema de salas de apoio, de recursos para os professores trabalharem. Já foi feito um levantamento, inclusive, de quem são essas crianças na rede e onde estão. Nós temos isso por unidade educacional. Essas crianças que foram detectadas vão continuar pertencendo às classes regulares onde estão, porém terão no período complementar atividades de apoio.
JC - Mas como, se faltam tantos professores? Daibem - Uma das providências que tomamos foi rever os convênios com instituições de educação especial. Havia distorção. Estavam cedidos não só especialistas de educação especial, mas professores de ensino fundamental e infantil, que não eram especialistas e que deveriam estar na rede cuidando do outro tipo de sala de aula. Nós retiramos quem não era especialista. Neste reajuste, trouxemos uma pequena parcela de professores de educação especial que, pelos critérios adotados, excediam às necessidades. Eles formaram o primeiro núcleo, que começa a desenvolver trabalho na rede municipal. Temos que montar as salas, temos mil coisas para resolver.
JC - No total, quantos professores a Secretaria de Educação deveria contratar para trabalhar numa situação tranqüila? Daibem - Para a gente ter uma estrutura de rede de professores com folga de substituição e tudo mais, seriam 57 professores entrando na educação infantil e mais 45 no ensino fundamental. Para funcionarmos com mais qualidade, seriam mais 18 merendeiras, 41 serventes, 20 ajudantes gerais. Vigia, teríamos de ter o total de unidades: 57 na educação infantil, 11 no fundamental e dois no (programa de) Jovens e Adultos. O prefeito fez a proposta de que as unidades tenham zeladoria, uma casa que a família more. As três últimas escolas já foram construídas com zeladoria. O prefeito (Tuga Angerami) autorizou aumentar o espaço de construção para acomodar melhor as famílias. Já autorizou pelo menos nas escolas de ensino fundamental. Essa pessoa cria vínculo com a comunidade. Ficaríamos com vigilância só para o ensino infantil. Mas também precisamos de mais três berçaristas, 15 auxiliares de creche e três lactaristas.
JC - Isso seria o ideal? Daibem - Não, seria o satisfatório. Nós já temos um projeto de construção de novas escolas. Elas vão exigir mais professores, mais merendeiras, mais serventes. Como Bauru não pára de crescer, então a demanda vai sempre existir.
JC - A senhora espera resolver tantas prioridades nesta gestão? Daibem - Seria muita pretensão dizer que a gente vai zerar problemas, até porque - graças a Deus - Bauru cresce bastante e a demanda nunca vai acabar. Mas estas questões que pontuamos, a gente entende que elas são pilares para edificar a casa sobre a rocha. Depois, mesmo que venham novos ventos, novas demandas, a gente entende que, com esses pilares, certamente ficará mais fácil administrar a rede municipal e garantir educação de qualidade.