O disco de aço desliza sobre o acrílico, percorre mais de 34 metros e derruba um pino dentro de um círculo pintado no chão. Quatro jogadores comemoram e outros quatro lamentam. Do lado de fora a torcida vibra ou se frustra com o ponto (depende de quem é o mandante da partida). Você entendeu o que se passa? Se não, seja apresentado à malha, um esporte que movimenta vários clubes de Bauru e região e mobiliza centenas de pessoas a cada final de semana.
Bauru é a referência da malha na região. A cidade é hexacampeã dos Jogos Regionais e exporta jogadores para os municípios vizinhos. Cerca de 180 atletas disputam o Campeonato Intermunicipal - principal competição da Região - e 70 deles são de Bauru.
A cidade tem ainda uma liga que atrai clubes de outras localidades. Onze clubes são filiados à Liga Bauruense de Malha (LBM): União Independente Princesa Izabel, Gasparini, Padilhão, Redentor e Arapongas. Fora de Bauru tem ainda Itaí, Avaré, Jaú, Lençóis Paulista e Boracéia.
Mas o que leva alguém a se tornar um jogador de malha? A resposta é sempre parecida entre os praticantes. â€œÉ muita emoção, principalmente quando está uma partida equilibrada, empatada. O cara chega a tremerâ€, afirma Ivanildo Cardoso da Silva, o Gasparini, vice-presidente da LBM e presidente do Clube de Malha Gasparini.
O jogo mexe com a adrenalina dos praticantes e exige alto grau de concentração, garantem. “Concentração é indispensável, porque fica lotado de torcida pressionandoâ€, diz Gasparini. “Tem que estar emocionalmente bem, ter concentração. Firme na batida, com o braço calibrado e isso é treinoâ€, complementa Daniel Mariano Campos, o Pinga, técnico do Clube União Independente Pincesa Izabel (Cuipi).
Além disso, não basta pontuar. Tem que saber o melhor momento para defender ou partir para arrasar o adversário. “Tem hora que tem que pensar na equipe, não pode partir para o jogoâ€, ensina Jéferson, 25 anos e atleta mais jovem do Cuipi.
A idade dos jogadores, aliás, é o grande desafio para os entusiastas do esporte. Uma rápida passada pelos clubes bauruenses não deixa dúvida de que a maioria dos praticantes é veteranos. “Quando comecei a jogar malha havia nove times em Bauru. Há uns 20 anos começou a cair. Hoje, temos apenas três em atividade (Redentor e Padilhão estão parados), então está caindoâ€, lamenta Pinga.
“Os jovens não estão vindo jogar. Já formamos vários jovens, mas não é fácil. Eles não estão interessados, falam que é jogo de velho e não vêm. Temos apenas dois jogadores entre 15 e 16 anosâ€, confessa Oscar Ferreira Lopes, técnico do Sociedade Esportiva Arapongas, clube fundado há 46 anos.
As explicações para a falta de renovação no esporte também são unanimidade entre os praticantes. “Falta mais incentivo. A malha em Bauru está sendo considerada um esporte que não é de massa. Então, não tem o apoio que deveria ter. Falta incentivo de renovação, ativar os campos que estão parados, criar uma escolinha e apoio financeiroâ€, analisa Antenor Custódio Alves, 87 anos, 25 anos dedicados à malha, fundador e presidente do Cuipi e coordenador da seleção de malha de Bauru.
“Já apresentei um estudo sobre a necessidade de se criar escolinha de malha em Bauru, a exemplo do que tem em outras regiões que estão desenvolvendo melhor que Bauru. Temos diversos campos bons sem atividade. É o caso do campo lá na sede dos funcionários da prefeitura, que está abandonadoâ€, conta Custódio.
“Tem que pegar garoto novo para a malha. A prefeitura tem que fazer escolinha. Nós não podemos parar só porque já está caindo. Se pararmos, cada vez mais defasando vai a malhaâ€, constata Pinga.
A fundação da liga, há três anos, e sua aproximação da Secretaria Municipal de Esportes e Lazer (Semel) são dois fatores que devem dar impulso ao esporte em Bauru.
Exceção
A exceção é o Clube de Malha Gasparini, que vive uma situação peculiar. “Aqui (clube) atrai porque é um bairro sem muita opção de lazer. Aí a molecada descobre a malha, gosta e a gente dá o incentivo. Temos potencial de crescimento, principalmente com o apoio da liga e da Semel. O objetivo é levar a malha para frenteâ€, explica Gasparini.
Entenda o esporte
• O campo (cancha) é retangular. Tem 36 metros de comprimento e 2,50m de largura, com círculos situados nas extremidades. O piso é de acrílico.
• Os pinos são de madeira ou material plástico e têm 18 centímetros de comprimento
• As malhas (discos de aço) medem entre nove e 11 centímetros de diâmetro e pesam de 600 a 800 gramas
• Na modalidade praticada em Bauru, são oito jogadores divididos em dois quartetos: dois atletas de cada equipe em cada cabeceira da cancha
• As partidas são disputadas em 12 jogadas completas de 24 malhas por atleta. Vence a equipe que conquistar maior número de pontos
• Existem duas formas de se pontuar: derrubar o pino vale quatro pontos; cada malha que penetrar totalmente no círculo interno e ficar mais próxima do pino que a do adversário, após concluída a jogada da cabeceira oposta, vale dois pontos