09 de julho de 2026
Cultura

Artigo: Uma casa sem paredes...


| Tempo de leitura: 3 min

Vivo ocupada. Organizo a minha agenda mas, no final da semana, acaba sobrando um ou outro compromisso adiado para os próximos dias. As visitas ficam relegadas a um segundo plano. Outro dia visitei minha tia favorita e ela olhou-me como se eu fosse um ET, dizendo: “Meu filho contou-me que a construção está adiantada, passei por lá e vi pilares e mais pilares. Não entendi nada.” Respondi: “Coisa de arquiteto, com aquela obstinação e impaciência própria da capricorniana.”

Quando prestei vestibular e entrei para a faculdade queria concluir o curso rapidamente. Encontrada minha vocação, procurei a independência financeira. Filhos pequenos, sonhava vê-los adultos.

Tenho uma casa maravilhosa, mas como minha vida é a soma de objetivos e metas, decidi que agora precisava de outra. Clássica ou moderna? Contemporânea e projetada pelo mesmo arquiteto da casa anterior. O condomínio com sua fisionomia bem definida em fundo verde e um lago quase molhando a rodovia dá ao local um ar exótico. Os terrenos amplos, o vento soprando do norte e alguns poucos moradores levando o cachorro para passear parece espantosamente calmo e confortável nesse mundo caótico.

Em outra crônica contei dos muitos percalços antes da construção começar. Continua sendo um caos. Imaginem aquela música: “Era uma casa muito engraçada/Não tinha teto/ Não tinha nada/ Ninguém podia fazer xixi/ Porque banheiro não tinha ali.”

Os versos são um retrato aproximado da nova casa. Colunas, lajes, caixa d’água, telhado e... cadê as paredes? Quando visito a obra, o Lourenço anda pelo enorme espaço dizendo: “Aqui é a escada, ali é o escritório, a entrada social, a garagem, as varandas, a churrasqueira.” Uma pausa e a sugestão: as escadas externas podem ficar nesse canto... Tudo invisível, visíveis são as vigotas de 18 centímetros, um pecado mortal. Se a torre de Piza balança e não cai há tanto tempo, por que cairia a nossa Babel?

Quando saio de lá tenho a sensação de que vou morar em um imenso terreno, dentro de uma barraca de camping, rodeada por dolmens - aquelas colunas enormes de sítios pré-históricos - transformadas pelo vento em esculturas e, ainda assim, singularmente modernistas.

Onde está o material entregue toda semana pelas empresas envolvidas no empreendimento? E o resultado do trabalho do Luís, do Fábio, do Mateus e do Ângelo, que permanecem em movimento contínuo o tempo todo?

Outro dia levei o responsável pelo aquecimento para alguns esclarecimentos. O sujeito apontando para o vazio do telhado mostrou-me o local do coletor solar. “A sua casa possui uma posição privilegiada, vai receber sol no verão e no inverno, terá água quente sempre”, ele disse. Faltou acrescentar “Se não chover por uma semana”. Olhou tudo e declarou, enfático: “A casa ficará muito bonita.” Pensei que o vidente precisa ter uma conversa com a minha tia. Para ela e para a maioria das pessoas, essa construção é uma incógnita. Mas, se vocês não espalharem, vou contar um segredo. A nova arquitetura inicia uma obra pela estrutura, pois ela é a forma em estado embrionário.

Embora esse conjunto de técnicas seja mais coerente e possivelmente mais econômico, como as paredes serão executadas por último, a casa só vai surgir no final, quase de um dia para o outro, como por encanto. A impressão de estranheza decorre do fato da construção aparentemente dar os primeiros passos do fim para o começo. Nada do que está acontecendo é um mistério para mim. Eu faço de conta que é. Afinal, estou me divertindo muito.

A autora, Rosa Bertoldi, colaboradora de Ju Machado - Escritório de Arte, assina-se com o pseudônimo de Rosa Bertoldi.