09 de julho de 2026
Pesca & Lazer

História de pescador: Pescaria da boléia


| Tempo de leitura: 3 min

“Voltamos ao nosso querido caderno de todas as quintas-feiras. Que delícia! E voltamos para narrar mais um fato fantástico que, não sabemos bem o motivo, sempre acontece conosco. Dentre as inúmeras viagens feitas ao lindo e imenso estado de Mato Grosso do Sul para pescar, nenhuma delas foi tão curta e assustadora quanto esta.

Era fevereiro de 1980, verão, sol escaldante com previsão de chuvas e ventos fortes para aquela semana que se iniciava. Nada disso assustou meu amigo e experiente caminhoneiro, o Pedrão. ‘Vamos lá, Fernando? Esta época promete muito peixe no pantanal!’ E fomos, desta vez de caminhão. Cortando a rodovia Mal. Rondon rumo a Três Lagoas, tudo era festa na boléia, Pedrão atento ao volante e eu na posição confortável de co-piloto, apreciando a paisagem.

O rádio toca-fitas do caminhão transbordava em música sertaneja. Era o gosto do companheiro, tolerável, já que o clima era de festa, em busca de bons peixes. Ao passarmos pela cidade de Lins, a polícia rodoviária, gentilmente nos parou perguntando qual seria o nosso destino. Ao sabê-lo, recomendaram cautela, pois a última previsão do tempo anunciava chuvas torrenciais e ventos muito fortes. De fato, algumas nuvens escuras já mudavam a cor do céu naquela altura da viagem. Mesmo assim, duvidei da previsão. Eles sempre erram, pensei.

Depois da simpática Araçatuba, começou a chover. Não parou mais. Nas proximidades de Andradina já era um vendaval. Mal se via a estrada e o vento já dava sinal de violência. Resolvemos continuar. Estávamos próximos da Usina Engenheiro Souza Dias, mais conhecida como Jupiá, cuja barragem divide os dois estados, quando um raio precipitou-se bem à nossa frente, na estrada. Foi um clarão espetacular, seguido de um estrondo muito forte. Confesso que assustei, mas o Pedrão não tava nem aí, cantando junto - ensurdecedoramente - com Leandro e Leonardo, no toca-fitas.

Na entrada da barragem a cena era dantesca! O vento, fortíssimo, soprava rio abaixo, encrespando as águas represadas que batiam na mureta, ameaçando transbordar. A chuva forte embaçava a visão, entrecortada pelo limpador do pára-brisa. Nisso, pudemos ver, incrédulos, vários objetos literalmente ‘voando’ por sobre a barragem! Mesmo com a visão prejudicada pela água da chuva, misturada com a névoa que subia da enorme represa, conseguimos ver algas, aguapés, pedaços enormes de madeira, galhos de árvores e alguns objetos prateados, além de tocos escuros que pareciam folhas de papel, pela maneira leve com que flutuavam ao sabor do vento impiedoso. Uma verdadeira loucura!

Pedrão, agora um pouco nervoso, vociferou: ‘Fernando, vamos atravessar a barragem! Não dá para parar! Segura as pontas!’ Segurei muito mais, inclusive meu coração acelerado que já ia saindo pela boca! No meio da barragem a situação piorou. Os objetos não ultrapassavam o concreto devido a sua grande altura. Batiam nele e caíam na carroceria do caminhão, Não fosse pela tempestade, o Pedro seria multado, pois passou a mais de 80 Km por hora onde o permitido era 30 Km.

Do outro lado do rio, já fora da barragem, estacionamos no acostamento, esperando o final daquele infernal dilúvio. Passado o aguaceiro, pudemos descer do caminhão. Atraídos por um barulho estranho, subimos na carroceria e constatamos, boquiabertos, algo assombroso e inusitado. Entre as algas, aguapés e galhos de árvores - pasmem senhores e senhoras pescadores -, debatiam-se, presos às redes de pesca, vários curimbas (aqueles objetos voadores prateados não identificados, lembram?) e pintados (aqueles tocos escuros!!).

Vejam o que é a força dos ventos naquela região. Arrancaram do rio, redes com peixes e tudo! Força maior que essa, só uma tsunami daquelas lá da Tailândia! E nós, apesar do risco, estávamos no lugar certo, na hora certa e com a carroceria certa, digo, descoberta. Voltamos de lá mesmo para Bauru. Foi nossa primeira pescaria em que as ‘tráias’ ficaram intactas e as iscas voltaram do mesmo jeito que foram. Agradecemos até hoje aos ‘bons ventos’ de Mato Grosso do Sul.”

Fernando Lucilha Júnior é pescador e contador de histórias que nunca mais duvida da previsão do tempo