O prefeito Tuga Angerami (PDT) esclareceu pessoalmente ontem ao JC que a Secretaria Municipal de Saúde (SMS) recebeu sim um lote de pílulas contraceptivas emergenciais, conhecidas como pílula do dia do seguinte.
Anteontem, a SMS afirmou à reportagem não ter acusado o recebimento do medicamento cujo envio havia sido confirmado pelo Ministério da Saúde. Segundo Angerami, o desencontro de informações teria ocorrido devido a uma falha de comunicação.
Por ser uma situação inédita - é a primeira vez que o governo federal encaminha esse tipo de medicamento para distribuição aos usuários do Sistema Único de Saúde (SUS)-, um funcionário administrativo da SMS acabou informando à reportagem que a pílula do dia seguinte não constava nos estoques municipais.
“Foi um descuido nosso, pois essa informação deveria ser prestada pelo responsável do setor de ginecologia da SMS”, admite o prefeito. Este setor é comandado, na secretaria, pela médica ginecologista Cristiane Andréa Mariano.
Com todos os documentos sobre a remessa do Ministério da Saúde em mãos, Angerami confirmou, portanto, que um lote de 600 doses da pílula do dia seguinte chegou aos estoques da SMS no último dia 5 de março, juntamente com outras 500 doses de anticoncepcional injetável, de distribuição também inédita na rede do SUS.
Segundo o prefeito, tais medicamentos não teriam sido encaminhados às unidades de saúde da cidade porque a SMS ainda não possui um padrão de procedimentos definido para sua distribuição aos usuários. “Pode ser perigoso (uma distribuição sem critérios)”, acredita Angerami.
O próprio chefe do departamento de ginecologia e obstetrícia da Maternidade Santa Isabel, Sérgio Henrique Antônio, afirmou à reportagem que a pílula do dia seguinte pode provocar dores abdominais, náuseas, vômito, dor de cabeça e sangramento vaginal irregular.
Por isso, Antônio sustenta que os comprimidos só devem ser utilizados em “caráter emergencial” e nunca como método contraceptivo “habitual”. Por carregar uma grande quantidade de hormônio, o uso freqüente e a longo prazo pode resultar até em câncer de mama. Além disso, a carga hormonal extra faz com que a mulher ovule com maior freqüência, o que pode aumentar as chances de uma gravidez.
Tais recomendações foram reforçadas pelo próprio Ministério da Saúde, que no dia 11 de abril, quase 40 dias após enviar a remessa, emitiu ofício neste sentido assinado pelo secretário nacional de Atenção à Saúde, Jorge Solla. Segundo o documento, a pílula só deve ser utilizada em “situações excepcionais e não como método anticoncepcional de rotina”.
Dentre essas situações excepcionais, o documento destaca falhas nos métodos contraceptivos (rompimento do preservativo, esquecimento de tomar a pílula ou de aplicação do anticoncepcional injetável, deslocamento do diafragma), violência sexual e relações sem o uso de anticoncepcional.
Caráter educacional
Além dos “perigos clínicos” num uso sem critérios do anticoncepcional de emergência, Tuga aponta ainda outros problemas associados a isso, como um suposto “alívio” nos cuidados defendidos por diversas campanhas, caso da utilização do preservativo. “A distribuição sem critérios pode conspirar contra campanhas que se desenvolvem há anos e até contribuir para o aumento na incidência das DSTs (doenças sexualmente transmissíveis, como aids, sífilis, entre outras)”, acredita.
Por tudo isso, adianta o prefeito, já está marcada para a próxima segunda-feira uma reunião do setor de ginecologia da SMS, que terá como tema principal a definição dos procedimentos a serem adotados pelo município com relação à distribuição do medicamento. “Não tínhamos o procedimento porque nunca tivemos a pílula”, justifica o prefeito.
Tuga acredita que a oferta dessa nova opção contraceptiva na rede pública de saúde precisa ser acompanhada de um trabalho educativo junto à população. “Não adianta termos o recurso (a pílula) se não abrirmos uma discussão sobre seus riscos clínicos. Por tudo isso, tivemos de segurar os estoques”, completa.