08 de julho de 2026
Geral

Sebes quer conhecer morador de rua

Gilmar Dias
| Tempo de leitura: 5 min

A Secretaria Municipal do Bem-Estar Social (Sebes) e a Faculdade de Serviço Social da Instituição Toledo de Ensino (ITE) vão levantar o perfil do morador de rua de Bauru. Segundo a titular da Sebes, professora Egli Muniz, a pesquisa, que será aplicada pelos alunos do curso, será realizada ainda neste mês. A tabulação das respostas e o resultado serão anunciados em agosto.

Depois de concluído o trabalho, o projeto da Sebes é viabilizar políticas públicas municipais destinadas a resolver o problema social. A pesquisa atenderá também a uma solicitação do Ministério do Desenvolvimento Social, que quer traçar o perfil da população de rua de todo o País para deliberar soluções.

Os alunos do curso de serviço social da ITE vão percorrer, em horários diferentes, os tradicionais locais de permanência dos moradores de rua. A pesquisa vai levantar a origem dessas pessoas, escolaridade, tempo de permanência na cidade, desde quando encontra-se nessa condição, profissão, estado de saúde, dentre outras questões.

Também será questionado ao morador de rua quais as vantagens e desvantagens de viver nessa situação. A abordagem dos alunos vai ocorrer durante o dia e no período noturno nas praças centrais da cidade (Rui Barbosa, Washington Luís e Machado de Mello), viadutos (13 de Maio, Antonio Eufrásio de Toledo e Rodrigues Alves com rodovia Marechal Rondon) e Terminal Rodoviário.

Embora à margem da política municipal, moradores de rua podem ser encontrados nos mais diversos pontos da cidade. Ao relento, caminham diariamente sem destino. A maioria, no passado, já teve família e cumpria rigorosamente o cotidiano burocrático estabelecido pela sociedade contemporânea. Pelos mais variados motivos, um dia decidiram largar tudo e correr o mundo. Até bem pouco tempo atrás, eram chamados de mendigos.

Segundo constatou a reportagem do Jornal da Cidade pelas ruas de Bauru, com raras exceções, eles preferem a liberdade que conquistaram à vida regrada da qual se abstiveram. Os governos, nas três esferas (federal, estadual e municipal), desconhecem quantos eles são. Apenas a cidade de São Paulo realiza, a cada três anos, um censo para apontar o número da chamada população de rua. O município de Bauru agora busca o mesmo caminho.

Depoimentos de vida

Ouvindo algumas histórias, o JC pôde levantar que entre eles estão alcoólatras, drogados e desempregados, mas também pessoas de inteligência surpreendente.

O mineiro Vitor Alves Quibaes, 61 anos, está em Bauru há 24 anos. Não tem casa nem família. Enrolado num cobertor e protegido do sereno pela marquise de um galpão que lhe dá vista privilegiada para o movimento do Sesc, Quibaes lembra que partiu com a família da cidade de Eloi Mendes, em Minas Gerais, para Londrina, no norte do Paraná.

Lá, seu pai formou fazenda de café, arrasada pelas geadas consecutivas de 1975 e 1976. A família perdeu tudo. “Cheguei em Bauru em 1981. Trabalhei de pedreiro por alguns anos e caí nessa vida”, relata, conformado. Ele, que não estava alcoolizado nem drogado, sente-se feliz no cumprimento do cotidiano diário.

“Não tenho emprego. Vivo andando pelas ruas. Mas também não pago imposto, tenho comida diferente todos os dias e quando minha roupa fica suja, peço ajuda e ganho outra nova”, conta, em tom de divertimento.

Na situação emocional inversa a Quibaes, o paulistano Olívio Barbosa Almeida Jr. vive em transe. Localizado num barracão abandonado próximo ao Abrigo para Idosos Vila Vicentina, ele conta que “reside” em Bauru há pouco mais de três anos. “Morei em São Paulo, no bairro da Brasilândia. Fui adotado com três anos de idade, mas abandonei a família”, diz.

Ele vive no barracão com outros seis rapazes, que preferiram não se identificar. Seu histórico de vida é agitado. Desempregado, Almeida não esconde que é viciado em drogas. Também revela que já foi preso em duas ocasiões. “Fiz um assalto à mão armada num posto de gasolina. Peguei quatro meses de cana. Depois, invadi uma loja e fiquei mais dois meses”, relata. Na opinião dele, não há críticas a fazer sobre a forma que escolheu para levar a vida. “É assim que gosto de viver. Livre e desempregado”, diz.

A faixa etária da população de moradores de rua é bastante diversificada. Encontram-se jovens, pessoas de meia idade e idosos. Vagando sob o sol com um saco apoiado nas costas, José Cordeiro dos Santos, 76 anos, anda devagar e com dificuldade devido a seqüelas de um atropelamento do qual foi vítima no início deste ano.

Lavrador natural de Pitanga, município do norte paranaense, Santos lembra com satisfação do passado. “Plantei muita soja e trigo em apenas três alqueires de terra, mas perdi toda a roça”, conta, em tom de lamentação. Há 25 anos morando em Bauru, ele revela que ainda tem esperanças de mudar de vida. “Gostaria muito de cuidar de uma chacrinha e voltar para a terra”, sonha.

O pouco dinheiro que ganha é resultado da capinação de terrenos que faz pela cidade. “A saúde já não ajuda. O atropelamento me rendeu platina no joelho”, justifica. Santos passa suas noites sob a marquise de um posto de combustível. Sua cama é um papelão. Mesmo diante dessa situação, não reclama da vida. “Estou próximo de descansar”, finaliza.

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Distribuição de sopa

Toda segunda-feira à noite, um grupo de moradores de rua de Bauru espera ansiosamente pela distribuição de sopa quente em três pontos da cidade: no Pronto-Socorro Municipal, na praça Rui Barbosa e na marquise da estação ferroviária da Noroeste do Brasil. Entre uma e outra colherada, a dona de casa Neusa Casa Santa Desimoni, responsável pela caridade, ouve tristes histórias de pessoas que um dia tiveram uma família.

Desimoni cumpre essa missão desde 1999. Nesses cinco anos de trabalho comunitário, conheceu moradores dos mais diversos tipos. Uma história dentre tantas que ouviu, no entanto, lhe marcou. Seu protagonista é um senhor de 60 anos de idade. Depois de ficar viúvo, casou-se pela segunda vez. “Essa esposa já tinha três filhos”, relata a voluntária da sopa.

“No retorno da formatura de uma filha, houve um acidente e ela morreu. Desgostoso da vida, entregou a mercearia da qual era proprietário aos cuidados da esposa e de seus filhos e foi correr o mundo. Parou aqui em Bauru”, conta Desimoni, que afirma contar com a ajuda de amigos e ter prazer em fazer o trabalho.

“Ganho os legumes e o macarrão. Em algumas ocasiões, salsichas e frango. O pessoal já está acostumado e me espera toda segunda à noite”, acrescenta. A dona de casa garante que enquanto estiver com saúde e contar com a ajuda dos amigos vai continuar distribuindo a sopa a moradores de rua de Bauru.