“O morador de rua é sintoma de uma sociedade desarranjada.” A afirmação é do padre Júlio Lancelotti, coordenador da Pastoral de Moradores de Rua da Diocese de São Paulo. Sacerdote há duas décadas, Lancelotti foi ordenado padre aos 37 anos. Na época, recebeu a missão de dom Paulo Evaristo Arns de ser o vigário dos “habitantes das ruas”.
Polêmico, ele afirma que a sociedade está cada vez mais intolerante com os moradores de rua. Há dez meses, São Paulo acordou com a notícia do brutal assassinato de um grupo de moradores de rua. “Até hoje a polícia não deu solução para o caso”, cobra. A seguir, a entrevista com o padre:
Jornal da Cidade - Qual é o perfil de um morador de rua?
Padre Júlio Lancelotti - Aqui na nossa realidade de São Paulo, percebe-se que a população de rua é bastante heterogênea. Não poderíamos dizer que há um único perfil. O que se percebe, hoje, é que a maioria é homem. Mas também está aumentando o número de mulheres e de famílias com crianças. É possível afirmar que a maioria da população de rua não é nordestina. É do sudeste. Uma boa parte também sequer concluiu o ensino fundamental. Existem, porém, até pessoas de nível superior morando nas ruas.
JC - É possível identificar os motivos pelos quais essas pessoas estão nas ruas?
Lancelotti - É um conjunto de fatores. Não há uma razão isolada. Em São Paulo, há 1,5 milhão de desempregados, mas nas ruas vivem cerca de 10 mil pessoas. Nem todos os desempregados estão nas ruas. A pessoa que está na rua já viveu uma sucessão de perdas. A perda do emprego é apenas mais uma. Perda do referencial, perdas afetivas, de familiares. Não dá para dizer que só uma perda foi decisiva para essa pessoa partir para a rua.
JC - Como o senhor avalia o tratamento do poder público para esse problema social?
Lancelotti - Na cidade de São Paulo existe hoje, após uma grande luta, uma lei que estabelece políticas públicas para a população de rua. É uma longa e conturbada história. Ela foi aprovada na Câmara, mas vetada pelo então prefeito Paulo Maluf. O Legislativo derrubou o veto já no mandato do prefeito Celso Pitta. Ele argüiu a sua inconstitucionalidade por vício de iniciativa. Fizemos grandes movimentos e o Pitta desistiu da ação. O primeiro ato da prefeita Marta Suplicy foi regulamentar essa lei. E agora aguardamos a sua implementação em tudo aquilo que traz de benefícios para a população de rua. Temos em São Paulo o Conselho de Monitoramento da Política Pública para a População de Rua, com participação de três pessoas que vivenciam a situação. Na Capital, podemos afirmar que há uma organização, um movimento de moradores de rua.
JC - O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o IBGE, não prevê nos censos a contagem dos moradores de rua. O senhor acha isso um equívoco?
Lancelotti - Sem dúvida. Devido a isso, eles (os moradores de rua) não ganham nem mesmo a categoria de cidadania. São tão invisíveis que inexistem no censo. Essa lei de São Paulo estabeleceu que a cada dois anos a prefeitura é obrigada a fazer um censo. Nós fizemos um primeiro no ano de 2000, no qual foram apontados 7.800 moradores de rua. O segundo, em 2003, registrou 10.700. Estamos nos preparando para o terceiro censo no segundo semestre deste ano. Pelo fato de o IBGE não fazer esse levantamento em nível nacional, fica impossível estabelecer políticas públicas para o problema.
JC - Recentemente, um grupo de moradores de rua foi brutalmente assassinado em São Paulo. O senhor acredita que parte da sociedade é intolerante com o problema?
Lancelotti - Sem dúvida que é um sinal de intolerância. Digo mais: é preconceito, é discriminação. Estamos em junho e já vamos celebrar o décimo mês sem qualquer solução do caso por parte da polícia. A violência contra a população de rua é sistemática por parte do poder público, por parte da polícia, da Guarda Municipal, por parte da população.
JC - O próprio sistema produz os moradores de rua. Não é uma hipocrisia a sociedade fechar os olhos para o problema?
Lancelotti - A sociedade tem uma intolerância muito grande com os moradores de rua. É possível entender que há dificuldades. É preciso que haja programas diferenciados. A população de rua não é homogênea. Temos contatado várias empresas, a Associação Comercial de São Paulo, para conseguirmos que aqueles que foram colocados na frente de trabalho agora possam ter um emprego. Há pessoas com problemas mentais ou com outros mais graves de saúde. Eles terão de ter assistência.