Desde o início da existência humana, o que mais se buscou ativamente foi o desenvolvimento, especialmente o da inteligência. Os saltos evolutivos dados nessa área permitem reconhecer, sem sombra de dúvida, que a capacidade do homem é ilimitada. Sabe-se, todavia, que a maioria das pessoas faz pouco uso desta mesma capacidade. Vê-se, continuamente, um modelo de massificação, no qual muitos crescem pouco e poucos avançam em maior escala, com autonomia e poder de criação. Para tantas coisas que podemos entender mais claramente em graus variados de consciência, acerca do modo de se viver e se comportar em sociedade, existem tantas outras em maior número, estima-se, de questões inconscientes ou obscuras. Sempre há de se notar nas pessoas, idéias e atos irreconhecíveis ou inexplicáveis, por parte daqueles com quem se convive e para consigo próprio. Aceitamos algumas coisas e repudiamos outras, conforme o arbítrio do nosso filtro mental e o estado evolutivo em que nos encontramos.
O lado rejeitado pelo próprio ser humano é aquele no qual são guardados os desejos, memórias e experiências, compreendidas como incompatíveis ou abomináveis, conforme a compreensão social que se tem de certo ou errado. Estes conteúdos formam o nosso lado desconhecido, ou seja, a nossa sombra interior. A sombra é perigosa porque leva a pessoa a projetar inconscientemente nos outros as suas próprias qualidades indesejáveis, negando que pertençam a si mesmo.
Há em nós uma mescla do bom e do mal. Nos amamos e nos odiamos. Estão presentes em nós os opostos. Tememos este fato pela educação que recebemos, a qual imprime-nos a idéia de que só podemos carregar o que for bom, e o seu contrário é pecado ou impróprio. Contudo, a nossa luta diária é ascender, crescendo continuamente, e não reprimir o que é parte natural da nossa criatura completa. É nos momentos de necessidade vital que permitimos, embora com pouca clareza, o surgimento de nosso lado obscuro, porém criativo, para criar formas de nos defender dos perigos que nos parecem cruciais. Toda a nossa energia e bravura assumem os papéis de heróis, salvando-nos dos riscos existentes. Em seguida, cedemos lugar ao comum, recolhendo a criatura para o seu esconderijo. Apenas nos momentos difíceis procedemos desta forma e, conseqüentemente, impedimos um maior aproveitamento de nós mesmos em outras ocasiões do cotidiano, a exemplo de ser mais agressivo nos negócios, ou mais enérgico a respeito de se valorizar a vida social.
A sombra dentro de nós precisa participar mais vezes das oportunidades que o viver diário oferece. Desta forma, haverá maior evolução no conjunto que forma a entidade que somos. Não é negando a sombra que facilitamos a convivência social. Ao contrário, é lidando com ela em vários momentos que aprofundaremos as relações. Ser mais criativo e autônomo, à medida que se aceita o que antes se julgava inaceitável, e ainda se aperfeiçoa, além de reduzir, em larga escala, o fenômeno de massificação ideológica. Ou seja, as opiniões alheias têm importância, porém, nem tanto. Pensando assim, surge uma questão: você se aceita em que grau? Gostaria de se aproveitar melhor? Qual é o seu limite de desenvolvimento?
O autor, Armando Correa de Siqueira Neto, é psicólogo, consultor, conferencista e escritor