08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Prestação de contas


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“Espero que a reforma política venha a quebrar o sigilo bancário de toda pessoa portadora de mandato popular. Político é empregado do povo e deve prestar contas a quem lhe dá emprego e paga o salário”.

Assim está escrito na página 28 da revista Época de 13 de junho, em entrevista dada pelo frade dominicano Carlos Alberto Libânio de Cristo, o Frei Beto. Essa afirmativa tão verdadeira, tão oportuna, merece ser divulgada e apreciada por todos nós, eleitores, portanto empregadores de políticos, que, muitas vezes, como eu mesma, nem tenham se dado conta dessa verdade cristalina: somos nós que empregamos e pagamos a todos esses safados que estão sob suspeita de malversação do nosso suado dinheirinho, para os quais trabalhamos mais de quatro meses por ano e por isso temos todo o direito de saber o que é que fazem com ele.

Ao se candidatar a um cargo público, seja ele qual for, desde o mais simples até o mais alto, os políticos deveriam ficar automaticamente obrigados a ter suas contas abertas e à disposição de quem quer que seja eleitor e tenha votado na última eleição, pois há de se tratar o seu dinheiro que está sendo usado para pagar-lhes os serviços. Todo candidato teria de ser inteirado dessa exigência, desde que o interessado em ser funcionário público, como são, na verdade todos os senadores, deputados, vereadores, governadores, prefeitos, juízes, enfim, sejam eles representantes dos três poderes ou funcionários servidores deles, todos aqueles que recebem de cofres públicos, passariam a ter de prestar conta desse dinheiro que recebem, abrindo suas contas correntes a todo e qualquer tipo de confrontação.

Quando um senador que foi eleito sem ter fortuna pessoal compra uma grande fazenda, ou quando um auxiliar de limpeza adquire um automóvel importado, pagando à vista, o eleitor pagante de todos os impostos que já vêm embutidos até na comida que ele come, terá todo o direito de saber de onde veio o dinheiro para a compra da fazenda ou do automóvel, não importando a altura do cargo em que se coloca o homem público. Ao se transformar em homem público, que recebe seu dinheiro dos cofres públicos, ele terá de dar satisfação, sim, de como adquire um bem acima de seu poder de compra, com o ordenado, vencimento ou provento que recebe. Pode ter ganho na loteria e terá de provar. Pode ter recebido de herança e, igualmente e com mais facilidade, terá como provar.

As incontáveis e astronômicas safadezas que estão vindo a público só poderão restabelecer a credibilidade ao governo, qualquer governo, se for providenciada uma urgente reforma política que tenha poder de coibir a safadeza, a malandragem e o infeliz e desgraçado jeitinho brasileiro de “levar vantagem em tudo”, que tanto nos avilta e denigre como Nação civilizada e democrática. Nem é democracia o que estamos vendo, é muito mais uma aristocracia da safadeza, cujo “poderoso chefão” será o mais asqueroso bandido, ladrão e cínico, que faz todas as suas ladroagens com cara de santo, que consegue chorar e arrancar lágrimas dos mais incautos, que ainda acreditam em Papai Noel e não enxergam a sórdida realidade que começa nos mais altos ganhos disto e daquilo (auxílio paletó, auxílio moradia, verba de gabinete e por aí vai), que são legalmente dados debaixo dos nossos narizes. Justo a nós, que nos apertamos cada dia mais, na classe média, sustentáculo do País e para quem o salário médio é ínfima parcela daquilo que os pais da pátria ganham, com o nosso dinheiro e sem que fôssemos consultados. Ao se autoconcederem esses achegos todos que custam tanto, deveríamos ser consultados, pois legislam safadamente em causa própria e em proveito próprio, em detrimento de todos.

Que respeitem a nós, pagadores dos impostos e empregadores dos políticos, e não leis feitas debaixo do pano e enfiadas garganta abaixo. Eles ainda acham pouco e cobram por fora seus "mensalões" para fazer o serviço para o qual foram empregados. Reforma urgente ou falência da democracia. Que democracia?

Isolina Bresolin Vianna - escritora, professora e jornalista