A gente vem aqui e fala do lixo e das doenças que nascem dele. Outros vêm e falam também. Estamos falando nas ruas, no ônibus, na lanchonete, na loja e continuamos vendo as pessoas ignorarem as lixeiras do Centro da cidade e dos estabelecimentos comerciais. Imagine-se nos bairros. Será que existe algum prazer em passar numa rua e ver copinhos, papéis e pedaços de alimentos espalhados pelas calçadas, ou passar em frente a um terreno e ver aquela fachada de sacolinhas de supermercado rasgadas, cheias de coisas podres e malcheirosas?
Os bauruenses precisam preocupar-se para evitar mais doenças e dolorosas mortes, especialmente onde há o foco da leishmaniose, que é o Jardim da Grama, Nova Esperança, Bauru 16, Santa Filomena, Jaraguá, Vila Dutra e arredores.
Toda cidade tem estado descuidada em relação ao lixo, pois até mesmo nos bairros onde moram as pessoas de nível socioeconômico maior, vê-se terrenos cheios de lixo e entulhos entre casas bonitas e enormes. É que isso vem não só do fato de ter condições financeiras.
Aí, vem alguém e põe fogo. “Vixe”. Isso é pior ainda. Fica mais sujeito a desenvolver o mosquito palha, que se sente “o máximo”, próximo a materiais em decomposição. Sem falar que a fumaça, muitas vezes tóxica, afeta e piora a saúde de quem a inalar. Ora, como pode haver prazer nisso?
Mas, repito, o pessoal da região do foco tem que ficar esperto, pois continua descuidado. Os moradores são obrigados a ver seus entes queridos contaminados pelas doenças vindas do lixo. Veja que mesmo os casos de leishmaniose detectados em cães em outros bairros têm sido só nos cães, basicamente, e que os casos em humanos são daquela região, em sua maioria. Você mora em outra região, tem animais e eles até podem ficar doentes, mas veja que lá, na do foco, é que tem havido os doentes humanos, os mortos humanos. Por isso, lá é que tem que ser concentrada uma verdadeira “operação de guerra” contra a doença. E os demais lugares devem ser cuidados pelos moradores e também pela saúde pública para evitar que essa dor de cabeça chegue a eles, assim como para que a cidade fique limpa, boa e bonita.
Se perceber sintomas no seu animal ou em alguma pessoa, procure o poder público e insista, se for o caso, para evitar tristezas maiores. E que se cuide da origem disso, que é o lixo. Que cada um faça a sua parte pra valer.
Um dia, eu e minha família moramos no Jardim da Grama, bem em frente a um grande terreno e ao velho curtume depredado e fétido. Alí, meu filho mais velho contraiu a leishmaniose e começou a ter sintomas discretíssimos até chegar a outros mais fortes, quando já tínhamos mudado para outro bairro. Perdeu o emprego, sentia-se mal o tempo todo e não se descobria o que ele tinha. Foi deixando seus sonhos de lado e ficando triste. Apesar disso, o tempo que ficou em casa comigo nos tornou mais que mãe e filho. Somos grandes amigos, pois até as músicas que gostamos são as mesmas e os assuntos que discutíamos eram de interesse comum. Ele nunca conseguiu, embora tentasse, ficar bem de novo, trabalhar e continuar os estudos. E eu fui cuidando dele e me contaminando com aquela tristeza incompreensível, que tomava conta de sua vida. Deixei tudo meio de lado e até meus outros dois filhos emprestaram parte do que lhes cabia da minha atenção para o irmão, que nunca mais esteve feliz. Então, em vez de ser uma mãe dividida por três, passei a ser por dois e todos entendiam. Eu e o Fernando nos compreendíamos e até chegamos a discutir várias vezes. Um tentando resolver os problemas do outro, pois amigos são assim quando verdadeiros. Ele até achava que, principalmente nos últimos tempos, eu o tratava mais como criança, pela sua debilidade física, que se mostrava maior a cada dia.
Entreguei-me a isso, pois faria qualquer coisa nessa vida para que ele se curasse e fosse feliz de novo, mesmo sem saber o que realmente tinha. Não fiquei cobrando dele o que deixei de fazer para mim, embora ele me desse broncas por eu não conseguir me interessar direito por outras coisas a não ser vê-lo bem.
Um dia, em abril desse ano, ele passou muito mal e foi para o hospital. Aí, uma luz apareceu e descobriu-se o que ele tinha (há mais de dois anos): a desgraçada leishmaniose. Fizemos tudo o que foi preciso para que a esperança que apareceu se concretizasse e o tratamento desse certo. Que lhe devolvesse a alegria de viver e não mais se sentisse mal e com dor o tempo todo. Tentei animá-lo e acho que até consegui um pouco. Nesses dias, ele fez planos diferentes dos que escrevia em seus diários e poesias, onde se dizia velho, cansado e que logo morreria. Mas era tarde demais. Ele se foi no último dia 17 de maio, pois a doença já estava muito adiantada. Teve todo esse tempo para se “divertir” no corpo do meu filho. Apareceram as complicações durante o tratamento. Tudo foi feito, mas ele não resistiu. Sofreu demais e levou com ele aquela metade de mim.
Ana Maria Lellis Krupelis - RG 5.706.855-0