09 de julho de 2026
Bairros

Bairro inteiro 'afunda' em problemas

Sérgio Pais
| Tempo de leitura: 5 min

A imagem de um bairro inteiro afundando no solo poderia bem ilustrar a apoteótica cena final de um filme de terror, daqueles em que casas construídas em cima de um cemitério são engolidas lentamente pela terra.

Mas, infelizmente, a imagem é bem real e aflige os moradores da grande maioria das casas do Núcleo Habitacional Quinta da Bela Olinda, localizado na região nordeste da cidade, próximo ao Núcleo Nobuji Nagasawa (Bauru 2000).

Lá, logicamente, não há nenhum cemitério esquecido, mas o bairro foi construído num grande “barranco” de terreno arenosos que, dia após dia, chuva após chuva, cede um pouco e leva junto as frágeis construções ali edificadas.

Um exemplo cruel da situação aconteceu com uma unidade habitacional localizada na rua Carlos Linares Roda, que afundou tanto por problemas no solo que a parte superior do batente de uma das portas já está na altura da cabeça de uma pessoa de 1,65 metro de altura. Hoje, o imóvel está logicamente abandonado, sem telhado, cercado de mato e com as portas e janelas vedadas.

Cansados de cobrar reparos em suas casas e no bairro, os moradores do local decidiram recorrer ao Ministério Público Federal (MPF), que moveu uma ação civil pública contra a construtora responsável pelos imóveis, a Companhia de Habitação Popular de Bauru (Cohab) e a Caixa Econômica Federal (CEF) por vícios na construção das casas.

Segundo a presidente da associação de moradores, Matilde Estevan, várias casas e muros correm sérios riscos de desabamento, situação já constatada através de laudo feito no ano passado por um engenheiro da Secretaria de Planejamento (Seplan) da prefeitura.

A Seplan constatou o problema na residência da dona de casa Rosymar Oliveira Souza Antunes, tesoureira da associação de moradores, cujo muro de arrimo localizado no quintal de seu terreno está cedendo e ameaça cair da casa dos fundos, construída num nível pelo menos três metros mais baixo. No documento, a Seplan chegou a recomendar a interdição do local num perímetro de três metros.

Os argumentos do laudo de Seplan foram reforçados na ação ajuizada pelo MPF, onde está descrito que “o muro de arrimo da divisa dos fundos do imóvel ameaça ruir a qualquer momento e a cobertura da área de serviço encontra-se deslocada do corpo da residência em virtude de deslocamentos do solo, recomendando que a área externa num raio de três metros seja interditada. Em outro, o muro de arrimo também ameaça ruir, havendo a mesma recomendação quanto à interdição”.

Estevan qualifica de irresponsáveis agentes como a Companhia de Habitação Popular de Bauru (Cohab) e da Caixa Econômica Federal (CEF). “Como é que um engenheiro aprova um bairro destes, sendo que qualquer medição indicaria que o solo é inadequado e que tudo poderia desabar”, questiona a líder comunitária.

Ela destaca ainda que, com tantos, problemas, a grande maioria dos moradores que ainda ficaram em suas casas interrompeu o pagamento das prestações. “Como a Cohab quer receber a prestação em dia se as casas estão desmoronando”, pergunta Estevan.

Crianças em perigo

No lado “de baixo”, o pedreiro Sílvio Rodrigues Fischer, 41 anos, já não sabe mais o que fazer para escorar o muro que, rachado ao meio, dá sinais claros de que não suportará por muito tempo. “Meus três filhos não vêm mais aqui (no quintal) porque o risco é grande”, afirma.

Nem mesmo seus conhecimentos de construção civil foram capazes de minimizar o perigo. “Fiz um muro forte, com vigas de concreto bem enterradas, mas nem isso segurou (o barranco)”, conta Fischer.

O pedreiro culpa os problemas na sua casa à piora de seu estado de saúde - hipertenso, ele sofreu um derrame cerebral que o deixou sete meses na cama e, atualmente, incapacitado para o trabalho. Mesmo assim, ele mantém como única esperança o conserto do muro. “Eu não tenho para onde ir e investi tudo o que eu tinha”, admite, para justificar o fato de que deixou de pagar as prestações.

Situação semelhante vive o motorista Paulo Sérgio Souza de Carvalho, 31 anos, cujo a rachadura no muro de seu quintal é tão acentuada que, pelo vão, é possível vislumbrar quebra semelhante no muro de seu vizinho. A situação indica, claramente, que todo o terreno está “descendo” de maneira uniforme, ameaçando todas as casas da rua.

O motorista também já limitou as brincadeiras de seu filho de 6 anos no quintal, que pode ruir a qualquer momento. Assim como Fischer, Carvalho também construiu, inutilmente, um muro com grossas vigas de concreto, enterradas a pelo menos dois metros de profundidade.

Os reflexos da movimentação do solo já aparecem também no interior da casa, que apresenta sérias rachaduras internas.

Sem condições financeiras de realizar as reformas necessárias, Carvalho, que nem se lembra há quanto tempo não paga a prestação, ficou surpreso ao ser informado que ele teria direito à cobertura do seguro habitacional para consertar este tipo de dano no imóvel. Agora, ele espera que a ação do MPF surta algum efeito.

“Ar condicionado”

A dona de casa Fabiana Maria da Silva, 29, também já não sabe mais o que fazer para resolver os problemas estruturais de sua casa. Mãe de uma menina com um mês de vida, Silva reclama que seu quarto fica frio com o vento que entra por uma enorme rachadura na parede. “Além disso, o forro também já ameaça cair em cima de mim e de minha filha”, relata.

A dona de casa lembra que a própria Cohab pediu que a família deixasse o imóvel para fazer os reparos necessários, que acabaram não sendo executados. “Saí por nove meses, precisei fazer um financiamento de R$ 7 mil, fiz várias reformas, refiz algumas estacas de concreto, mas acabei perdendo todo o investimento porque a casa voltou a rachar”, protesta.

Ela também está inadimplente, mas quer “entrar” na ação do MPF para ser ressarcida dos gastos que teve com as reformas. “Guardei todas as notas fiscais para comprovar que eu tentei arrumar a casa”, conta.