09 de julho de 2026
Articulistas

Entre a cruz e a caldeirinha


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A pergunta ficará no ar por um bom tempo: Roberto Jefferson subirá ao cadafalso? Os mais apressados dirão: será enforcado porque os deputados, incorporando o sentido de corpo, limparão as proximidades com um golpe mortal no bode expiatório. Os mais cautelosos arriscarão: o dedo da opinião pública, para baixo ou para cima, definirá a salvação ou a morte do presidente do PTB. Seja qual for a resposta, veremos, nos próximos meses, a cena mais espetacularizada do teatro político desde os heróicos tempos do impeachment de Collor. O desfile dos atores pelos palcos investigatórios exibirá o mais rematado acervo de mazelas da política brasileira, abrigando as relações promíscuas entre poderes, o patrimonialismo, o fisiologismo, a pasteurização partidária, as teias intestinas de corrupção, ingredientes que configuram o avançado estágio da crise da democracia representativa no País.

Pela lupa interna, focada exclusivamente para as esferas do Executivo e do Legislativo, a alternativa mais desejável seria a morte súbita de Roberto Jefferson. Haveria um velório com pouco choro e muito conforto espiritual para os sobreviventes da catástrofe. O Legislativo seguiria o curso natural - com os jogadores exercitando contrariedades no tabuleiro do xadrez político - e o Executivo fazendo rápida manobra de troca de nomes no ministério, respiraria aliviado com a governabilidade garantida, apesar de espasmos gerados nos corpos político e governamental pelo “garganta profunda” brasileiro. É verdade que ambos os poderes, na hipótese aventada de cassação do deputado petebista, subiriam a montanha de 2006 combalidos por tropeções, apostando que a memória nacional passe a se ocupar, nos próximos meses, com a catarse das emoções trazidas pela seleção canarinha na Copa do Mundo.

Felizmente, o olhar externo, multiplicado ad infinitum por uma sociedade que apura o senso crítico, balizará as decisões maiores de atores e instituições no meio da tormenta em expansão. A razão é plausível: a visão social aguçará outros sentidos, desaguando no voto. E é para o voto que o olho do político se volta. Partindo-se da premissa de que o fato nuclear, que é corrupção, com seus ingredientes - mensalão, dinheiro em espécie do caixa dois, uso de cargos para encher cofres partidários - está mais do que evidenciado, pela pletora de testemunhas, situações e circunstâncias descritas por Jefferson, a classe política, como um todo, acaba sendo alvo da contrariedade social. Pouquíssimas exceções conseguem ter a imagem limpa. Pólos de contestação se alastram, devastando perfis parlamentares e abrindo profundas fendas no meio da sociedade, que passam a ser ocupadas por núcleos organizados. Cerca de 500 mil deles - entre oficiais e oficiosos - se espalham pelo País, formando círculos concêntricos e disseminando opinião até as margens mais distantes da sociedade.

Sob o clamor emotivo das periferias e a crítica racional dos espaços centrais, o “fator Jefferson” abre duas alternativas ao conjunto parlamentar: cortar a própria carne ou pôr panos quentes. O corte da própria carne tem duas modalidades: fatia gorda e fatia magra, com a primeira “cortando” parlamentares que distribuíram ou receberam mensalão, caso sejam incriminados e condenados; e o corte magro, restrito ao corpo do presidente do PTB. É nessa toca onde o bicho pega. A chance de cassação múltipla de mandatos é próxima de zero, enquanto a possibilidade de expurgo de Jefferson, numa escala até cem, está em torno dos oitenta.

A cassação, porém, teria como razões negócios escusos nos Correios ou a negociata do dinheiro sem nota repassado do PT para o PTB, caso em que o deputado confessa ter praticado crime eleitoral. Ocorre que a peça de oratória jeffersoniana acabou se transformando, ao mesmo tempo, em seu escudo de proteção e em espada de Dâmocles sobre o Parlamento. Cassado, sem levar consigo outros acusados de falcatruas, passará à condição de vítima de um Parlamento que será intensamente execrado pela opinião pública.

A segunda alternativa dos deputados, a dos panos quentes - absolvição do réu transformado em acusador e da turma do mensalão - será um tiro no pé. A oferta de uma gigantesca pizza, servida no banquete de comensais famintos (ou comensalões?), aumentaria a indignação social. O affaire Jefferson, qualquer que seja o caminho a ser seguido, deixará os parlamentares entre a cruz e a caldeirinha. O estrago está feito e não há perigo de ser diminuído. As medidas que se anunciam nas esferas dos Poderes Legislativo e Executivo - reforma política, reforma ministerial - se encaixam no acervo das coisas apressadas, e assim entendidas, serão corpos natimortos. No fundo, o que se pretende é colocar sobre as feridas crônicas da política uma pomada superficial, cujo efeito analgésico, depois de algum tempo, se esvai, fazendo voltar as antigas mazelas.

De pouco adiantará ao presidente Lula uma reforma ministerial cosmética. A saída de Dirceu do Planalto para a planície vai apenas esquentar a água. Reformar trocando nomes é colocar papel colorido sobre a parede suja. E reforma política pela metade também não mudará muita coisa. As duas medidas apregoadas para “abafar” a crise equivalem a tampar o sol com a peneira.

O autor, Gaudêncio Torquato, é jornalista, professor titular da USP e consultor político