11 de julho de 2026
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Questões da alma: um encontro com o universo junguiano


| Tempo de leitura: 4 min

Que espaço ou tempo temos hoje para questões da alma? Como conciliar necessidades internas com a demanda externa cada vez mais exigente e acelerada? É possível ter, nos dias atuais, bom nível de saúde psíquica? Essas são algumas das questões da 3.ª Jornada de Psicologia Junguiana de Bauru e Região que acontece nos dias 1 e 2 de julho e tem como tema “Jung e os labirintos da alma: Individuação em tempos de Crise”. O evento, dirigido para psicólogos e interessados em geral, é promovido pelo Instituto de Psicologia Junguiana de Bauru e Região, e tem como acontecimento paralelo a 8.ª Mostra de Pesquisas do Curso de Técnicas Terapêuticas Junguianas.

Médico e psiquiatra de formação, o suíço Carl Gustav Jung nasceu na virada do século 19 e foi discípulo de Freud, de quem posteriormente divergiu. É o criador da escola psicoterápica denominada Psicologia Analítica ou Psicologia Profunda. Entre suas inúmeras contribuições para a compreensão do ser humano estão os conceitos, ainda em elaboração, de Inconsciente Coletivo, Arquétipos e Individuação.

Jung propôs a diferenciação entre o inconsciente formado por um repertório pessoal, espécie de quarto de despejos da consciência, lugar dos conteúdos reprimidos e/ou esquecidos, e o inconsciente coletivo: um substrato psíquico comum a todos. Assim como qualquer pessoa apresenta a mesma estrutura anatômica-fisiológica, também nossa psique possui um denominador comum. Jung chegou empiricamente a esse conceito ao observar que sonhos, delírios e fantasias de seus pacientes eram repletos de elementos que extrapolavam vivências pessoais e revelavam conteúdo arquetípico.

O termo arquétipo vem do grego, arkhé - princípio, origem, fundamento - e týpos - marca, impressão. Arquétipos são impressões primordiais existentes na psique, potencialidades herdadas que influenciam os conteúdos da consciência e impelem a pessoa a repetir certas experiências. Todos nós, por exemplo, nascemos de uma mãe. Essa experiência, repetida através de milênios, origina um conteúdo psíquico denominado “arquétipo materno”. Ele possibilita que qualquer mulher reconheça e vivencie a maternidade e que a idéia de mãe seja identificada por todos. Já a vivência concreta de cada um com sua própria mãe gera um “complexo materno”, positivo ou negativo conforme o caso.

Segundo Jung, é essa estrutura coletiva e arquetípica da psique a responsável pelos elementos comuns que encontramos nos mitos, contos de fadas e narrativas populares de diferentes culturas e épocas. Elementos também presentes nos sonhos e fantasias do homem contemporâneo.

O eixo da psicologia junguiana é o chamado “Processo de Individuação”: o processo de nos tornar, durante a vida, aquilo que realmente somos, para além da necessidade de adaptação ao mundo e do sucesso nele conquistado. Ele conduz a uma realidade interior que independe dos papéis que, circunstancialmente, desempenhamos e das expectativas existentes sobre nós. A demanda externa, que dirige e condiciona, em alguma medida, a existência de cada um, é responsável pela construção do que Jung denominou Persona: a parte da consciência voltada aos papéis que assumimos na vida. É o modo como nos apresentamos ao mundo, uma espécie de máscara, significado original do termo.

Ao adulto, depois de vencidos os desafios da primeira metade da vida, cabe a busca consciente da Individuação. Trata-se de uma reflexão profunda acerca dos caminhos percorridos até então e daquilo que foi deixado de lado em nome da sobrevivência e da adaptação ao mundo, privilegiando a unilateralidade da consciência. É o momento de retirar, o mais cuidadosamente possível, nossa máscara e encarar aspectos sombrios e inconscientes de nós mesmos. Naquilo que Jung denominou Sombra (a parte reprimida e negada) não estão apenas nossos “monstros”, mas também muita criatividade esperando possibilidade de ação.

Por isso é comum pessoas na chamada “meia idade” mudarem radicalmente o sentido de suas vidas, com a descoberta de novas possibilidades, novos caminhos. Ou, no caso da manutenção sistemática de posturas unilaterais da Persona, a vivência de profundas depressões: quanto mais a máscara adere à pele do ator, mais difícil e doloroso é retirá-la!

Para Jung, a existência é plena de significado que deve ser buscado a todo custo. Empreender essa busca, trilhar os caminhos da alma, é a Individuação. No mito, corresponde ao caminho heróico com todas as façanhas, riscos e desafios e necessários. Na primeira metade da vida a estruturação do Ego e a conquista de vitórias sobre o meio (relações bem sucedidas com o outro e o mundo, realização profissional, etc.) é o eixo do crescimento. Na segunda, percorrer caminhos mais essenciais e autênticos da alma é o que pode nos tornar, de fato, vivos!

A autora, Cristina Rodrigues Franciscato, é jornalista, mestre e doutoranda em língua e literatura grega antiga