08 de julho de 2026
Bairros

Centro quer (re)viver

Sérgio Pais
| Tempo de leitura: 4 min

O bauruense que vai hoje o Centro da cidade para suas atividades cotidianas apenas durante o horário comercial, talvez não tenha a dimensão do “deserto” que se abate sobre a região assim que os trabalhadores picam seu cartão e as lojas baixam suas portas.

E se este mesmo bauruense não conhecer o passado da sua cidade, talvez também não saiba que ali, onde atualmente à noite apenas alguns gatos pingados circulam já foi um dia o grande ponto de encontro de boa parte da sociedade de então.

O Centro da cidade era um local freqüentado por famílias que buscavam lazer, por solteirões no seu incansável “footing” em busca do grande amor e por empresários e políticos que, entre um café e outro, decidiam o futuro da Cidade Sem Limites. Não raro, além de freqüentadoras, estas pessoas ainda desfrutavam, com orgulho, do status de moradoras da região.

O tempo passou, a realidade mudou e o JC nos Bairros (sim, o Centro é um bairro!) foi às ruas, vazias durante a noite, para ouvir moradores, agentes públicos e empresários para saber por quê uma região dotada de tão vasta infra-estrutura, com transporte público e interligação viária com todos os pontos da cidade, precisa “morrer” durante boa parte do tempo, impedindo a geração de novos empregos e limitando a oferta de opções de lazer à população.

O assunto começou a ser debatido mais objetivamente no final do ano passado quando o Grupo Pró-Bauru (GPB) o incluiu na sua pauta de prioridades. E, para a maioria dos consultados pela reportagem, um aspecto é considerado fundamental: a fuga dos moradores.

“O problema do esvaziamento (noturno) da área central é a ausência de moradias, que desapareceram de lá. Enquanto não tiver morador, não haverá vida noturna”, afirma, categoricamente, o secretário de Desenvolvimento Econômico da Prefeitura de Bauru, Wallace Garroux Sampaio, um ex-integrante do GPB que só deixou o grupo porque o seu estatuto impede a presença de pessoas ligadas ao poder público.

Também presidente há anos do Sindicato do Comércio Varejista de Bauru (SinComércio), Sampaio invoca sua experiência para sustentar a teoria de que este esvaziamento noturno é um processo autofágico, que se transformou numa espécie de círculo vicioso.

“O deserto noturno é progressivo e se auto-alimenta: o comércio não abre (à noite), o povo não vai ao Centro e o morador foge. E quanto menos gente mora, mais gente vai embora e menos gente quer ficar”, teoriza o secretário.

Diante desta conjuntura, Sampaio admite que toda a área é considerada como Centro, formada pelo triângulo delimitado pela linha férrea e as avenidas Duque de Caxias e Nações Unidas, acabou muito desvalorizada. “É uma região onde não acontece nada em termos de novas construções, apesar de estar apta a receber empreendimentos”, diz.

Moradia precária

Apesar da imagem do Calçadão vazio durante a noite ser a mais impactante, Wallace Sampaio destaca que o esvaziamento noturno é generalizado por toda a região central. “O Calçadão é apenas a parte mais visível”, avalia. Ele afirma, no entanto, que este fenômeno não é um “privilégio” de Bauru. “Fui visitar o calçadão de Curitiba no ano passado e vi que lá também havia um deserto noturno”, conta.

Ele lembra que o Centro de Bauru até possui prédios para moradia, mas são edificações antigas, com instalações (elétrica e hidráulica) corroídas pelo tempo e que, por isso, precisariam passar por uma requalificação para voltarem a ser atrativas. “Há muito imóvel fechado, aguardando uma locação comercial, não só pelo valor, mas porque não há interesse por parte de potenciais moradores”, constata.

E Sampaio lembra que, em princípio, o Centro seria uma região bastante propícia para certos tipos de moradores, como aqueles que não possuem veículo próprio, como primeira moradia de recém-casados ou como residência para aposentados. “É uma parcela importante da população que teria condições de aproveitar bem os benefícios de morar no Centro”, acredita.

Além disso, o secretário admite que o Centro é supervalorizado em termos fiscais, com altas alíquotas do Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU). E isso, segundo ele, é mais um fator que realimenta a tendência de esvaziamento das edificações para fins residenciais, com a conseqüente fuga da rede de serviços.

Sampaio destaca que os debates sobre a revitalização do Centro, que tiveram início no GPB buscam, justamente, encontrar formas de intervenção para romper o tal círculo vicioso. “Toda cidade que iniciou este processo, muito comum na Europa, começou com projetos de retorno das moradias. Com gente residindo, o bar abre, a farmácia abre, o restaurante abre e, aí, o círculo vira”, acredita.