09 de julho de 2026
Bairros

Moradores criticam custo-benefício

Sérgio Pais
| Tempo de leitura: 3 min

Um misto de saudosismo e revolta toma conta da professora Eliana Ferraz Inete, 53 anos, quando perguntada o que significa para ela ser uma moradora do Centro da cidade. Há 35 anos instalada numa confortável residência da rua Araújo Leite, a professora sonha com o dia em que uma revitalização consiga trazer pelo menos um pouco do que a região já foi.

“Antigamente, dava para passear com nossos filhos na praça Rui Barbosa. Hoje, depois das seis (horas da tarde), a gente é assaltado”, afirma a professora. Segundo ela, esta situação de abandono fez com as famílias deixassem de ir à praça. “Ainda existem muitos moradores por aqui (no Centro), mas estão todos enclausurados em suas casas e apartamentos”, acredita.

Apesar dos benefícios de se morar numa região da cidade dotada de uma invejável rede de serviços, Eliana lamenta as limitações causadas pelo abandono da região. Para ela, este abandono se apresenta de forma incontestável na precariedade da iluminação pública. “Tem poucos postes e as árvores, por falta de planejamento, são plantadas do mesmo lado das ruas. Não dá nem para ir ao teatro, que fica aqui perto”, diz.

O mesmo sentimento de desconsolo e revolta é compartilhado por ser marido, o aposentado Antônio Miguel Edeas Inete, 65 anos, 53 deles vividos na mesma casa da rua Araújo. Ele lembra que a situação poderia ser diferente e invoca uma realidade, segundo ele bastante diferente, vivida por uma de suas filhas, moradora na cidade de Ribeirão Preto. “Lá, dá para ver famílias com crianças na praça central”, relata.

A questão da segurança é outro ponto que incomoda o casal da rua Araújo. Eles se lembram, com saudosismo, do tempo em que tinham um portão baixo que permitia a observação do movimento na rua. Hoje, os Inete vivem atrás de um portão de chapa de metal que vai do chão ao teto da garagem.

“Estamos a menos de 50 metros de uma base da Polícia Militar, mas aqui não passa o policiamento à noite”, protesta a professora, reclamando que o esquema de segurança pública só é visível de sua casa no horário comercial. “Só se pensa em segurança para a Getúlio (avenida Getúlio Vargas), com todo investimento voltado para a zona sul”, completa.

Mas a principal revolta do casal se resume mesmo no fato de que tamanho “abandono” vem acompanhado de um pesado carnê de Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU). “O Centro foi esquecido, mas mesmo assim pagamos mais impostos que os moradores das chamadas regiões nobres”, diz a professora, mostrando o carnê de IPTU com parcelas mensais de R$ 632,00.

Esperança

Mesmo diante do quadro atual, os Inete não perdem a esperança de que a nova proposta de revitalização do Centro apresente resultados positivos. Eles também admitem deixar o local. “Não saio daqui porque minha casa é confortável, gosto dela, é perto de tudo, mas estou enclausurada. O projeto poderia começar pela melhora da iluminação e da segurança pública”, sugere a professora. Eles lembram ainda que, diante da insegurança da região, a maior parte dos antigos vizinhos trocou o Centro por bairros periféricos. “Mas nós vamos resistir”, garante a professora.

Para o casal, qualquer iniciativa precisa levar em conta os moradores do Centro, e não apenas os comerciantes. No ano passado, a professora revelou em carta enviada ao JC toda sua revolta pelo esquecimento ao qual a população do Centro estava submetida.

“Durante o período pré-eleitoral, tanto os candidatos a vereador quanto a prefeito, sem exceção alguma, falaram em melhoria para os bairros de toda Bauru, de norte a sul, de leste a oeste, mas em momento algum se referiram ao Centro da cidade”, escreveu. “Somos pagadores de impostos e merecemos mais atenção. Não é necessário fazer pesquisa com as imobiliárias. É só a administração verificar em seus cadastros que a área central não é feita apenas do comércio que funciona das 9h às 18h”, finaliza.