10 de julho de 2026
Geral

Entrevista da semana: Para Azenha, EUA se voltam à religião

Gilmar Dias
| Tempo de leitura: 10 min

Nos 16 anos que morou nos Estados Unidos como correspondente internacional de duas emissoras de TV (Manchete e Globo), o olhar crítico do jornalista Luiz Carlos Azenha traçou o perfil da sociedade que sustenta o país mais poderoso do mundo. A avaliação que ele faz é a de que os americanos de hoje estão mais religiosos se comparados aos de outras épocas do passado.

Tanto é que a religiosidade e o conservadorismo foram os pontos fortes da campanha vitoriosa do presidente George W. Bush à reeleição, no ano passado.

Profissional que atuou por mais de dez anos no Jornal da Cidade, Azenha esteve em Bauru na última segunda-feira para uma palestra que aglutinou um público heterogêneo, formado por estudantes de jornalismo, amigos, jornalistas e pessoas em geral interessadas em saber um pouco mais sobre a vida tensa de um repórter internacional. Na entrevista concedida ao JC, ele também falou da Guerra do Iraque, de jornalismo e de seus projetos profissionais. A seguir, a entrevista:

Jornal da Cidade - O senhor residiu 16 anos nos Estados Unidos. Qual é a sua avaliação da sociedade norte-americana?

Luiz Carlos Azenha - Os Estados Unidos passam por uma fase muito conservadora. Mais conservadora que qualquer momento desde que eu comecei a viver lá. Os americanos passaram por uma fase consumista muito grande, mas não encontraram a felicidade. Diante disso, se voltaram à religião. Houve uma fragmentação muito grande da família americana por causa até de questões econômicas. Quando se tem oportunidade de trabalho por todo o país, as pessoas começam a se deslocar e ocorre a fragmentação da família. E essa fragmentação isolou as pessoas. O país ficou muito individualista. Neste momento, há uma rejeição a esse modelo social. Por isso, as pessoas estão mais apegadas à religião. O país está mais conservador nesse aspecto. Diante desse quadro, os políticos conservadores estão nadando de braçada nesse instinto do eleitorado, que é um instinto mais conservador, menos voltado a transformações sociais radicais. Há um apego muito grande à religião e à família tradicional, embora a taxa de divórcio e de mães solteiras continue sendo alta. Até mesmo os homossexuais americanos estão conservadores. O que se prega agora entre os homossexuais é a família gay.

JC - Nesse sentido, o presidente Bush trabalhou muito bem o eleitorado. O senhor acha que isso fez a diferença na campanha à reeleição em relação ao adversário?

Azenha - A grande surpresa da imprensa em relação ao Bush foi a vitória folgada que ele conseguiu, o que não se esperava. Ele fez alguns apelos que foram decisivos. Não foi bem para a maioria, mas o seu marketing foi muito bom porque ele pegou as minorias dentro dos Estados que poderiam ser os fiéis da balança, fazendo apelos específicos. Não era a maioria dos eleitores, mas era a fatia que poderia significar vitória naquele Estado. Ele fez um apelo muito grande contra o casamento gay, pela religião nas escolas, embora exista a separação do Estado e da igreja. Sua vitória ocorreu graças a essas fatias, como o eleitorado conservador de Ohio e da Flórida.

JC - Como o senhor analisa essa política insana dos Estados Unidos, que querem, a qualquer custo, sempre estar guerreando e arrumando inimigos?

Azenha - Os Estados Unidos têm uma tradição bélica muito grande. Na Guerra Civil americana morreu muita gente. Foi uma guerra muito sangrenta. Eles sempre estiveram envolvidos em conflitos mundiais. A partir da 1.ª Guerra Mundial, os Estados Unidos quase empre estiveram envolvidos em conflitos. Estiveram na 2.ª Guerra Mundial, na Coréia, no Vietnã, agora no Iraque, as invasões do Panamá, e todas aquelas pequenas guerras, como Granada. A esquerda americana cunhou um termo, que o complexo industrial militar. E isso existe de fato. Talvez não com o poder que é atribuído a isso. Mas eles têm muitos interesses, inclusive representados no Congresso americano. É muito importante você criar justificativas militares para que o dinheiro público continue sendo investido na fabricação de armas. E isso se dá como? Criando inimigos. Eles até existem, mas são usados como se fossem espantalhos diante da sociedade americana. O Saddam Hussein, por exemplo, que tinha um exército de quinta categoria, foi alçado à condição de um cara que ameaçava o mundo, mas qualquer um sabia que ele não ameçava nem mesmo o Kwait. O Saddam estava completamente enfraquecido antes do conflito, tanto é que a guerra foi um passeio. Foi um absurdo o que a mídia e a máquina de propaganda do governo fizeram.

JC - É possível afirmar que as indústrias bélicas movimentam boa parte da economia norte-americana?

Azenha - Elas puxam o crescimento econômico americano. Sem dúvida, essas indústrias têm uma participação significativa. Elas recebem grandes somas de dinheiro do orçamento militar americano, que é próximo a US$ 1 trilhão por ano. É muito dinheiro. Esse dinheiro todo não é direcionado exclusivamente à produção de armas. Mas esses complexos são grandes empresas.

JC - Já se compara o Iraque ao Vietnã. Soldados americanos e civis morrem diariamente nos atentados de carros e homens-bomba. Qual é o prognóstico que o senhor faz para esse conflito?

Azenha - Será um sangramento lento. Quando fui ao Iraque, conversei com muita gente. Até mesmo pessoas que eram contra o Saddam. Me lembro de um professor de história que entrevistei que relatou a questão do nacionalismo iraquiano. O Iraque tem uma história muito bonita. No tempo da Mesopotâmia, tiveram grandes invenções científicas. É um país de grande tradição cultural; há um orgulho nacional muito grande. Esses elementos hoje se combinam com o islamismo, com o nacionalismo árabe, para oferecer uma resistência que os norte-americanos não conseguiram, até hoje, explicar. Tudo é atribuído a Al Qaeda. Mas há muito mais do que a Al Qaeda. Eu avalio que o Bush, os Estados Unidos, não têm a real dimensão do que é ferir o orgulho de um país tão nacionalista como o Iraque. Esse professor de história disse que os americanos estão inventando uma nova Palestina. Eu acho que é isso mesmo. Depois de ter passado duas semanas por lá, acho mesmo que ocorrerá um sangramento lento, que eventualmente acabará na retirada das tropas norte-americanas.

JC - Na opinião do senhor, a retirada deverá ocorrer a curto prazo?

Azenha - Não. Isso deverá ser decidido a médio e longo prazos. Acho que esse assunto será o tema da próxima eleição presidencial. O candidato que se propuser a uma retirada paulatina do Iraque, terá boas chances de conquistar uma boa fatia de votos. O Bush já enfrenta um bombardeio em casa de políticos aliados, inclusive do Partido Republicano.

JC - Cresce o número de latino-americanos, principalmente mexicanos e brasileiros, que cada vez mais tentam chegar aos Estados Unidos pela fronteira do rio Grande. O senhor acha que a xenofobia ganhou força no país?

Azenha - O que acontece nos Estados Unidos é que nas décadas de 50 e 60 a economia americana era uma garantia de que você teria condições de viver melhor do que seus pais. Recentemente, com a redução do número de postos de trabalho, devido ao avanço da tecnologia, há milhões de americanos disputando funções que antes eles não disputavam. A entrada dos imigrantes ilegais, que no passado não causavam nenhum prejuízo à economia americana, agora já é motivo de preocupação. De certa forma, eles competem com os americanos pelo escalão mais baixo dos empregos. É aí que nasce essa resistência. Os políticos exploram isso com maestria, atribuindo aos estrangeiros todo tipo de problemas.

JC - Como o senhor analisou o episódio da expulsão do jornalista norte-americano correspondente do New York Times que insinuou claramente que o presidente Lula seria alcoólatra?

Azenha - Eu acho que o Brasil endureceu muito ao expulsar o jornalista. Li a matéria. Foi baseada no disse-que-disse. O que ele fez foi reproduzir basicamente o que a imprensa já tinha publicado. Juntou cacos de matérias e usou trechos de uma entrevista de um inimigo político do presidente Lula, que é o Leonel Brizola. Achei a matéria imprópria. O caso só ganhou essa repercussão porque o governo reagiu de forma desastrada. Presumo que os norte-americanos também ficariam insatisfeitos se uma publicação brasileira, do porte do New York Times, dissesse que o Bush foi cocainômano quando jovem e que ainda hoje teria ouvido dizer que ele cheira cocaína na Casa Branca. A matéria foi mal ilustrada. O próprio ombudsman do New Yok Times fez críticas. Ele disse que a ilustração era totalmente descabida, que a foto era de um evento que não tinha relação com o texto.

JC - Diferentemente do que se vê no Brasil, os grandes jornais americanos assumem claramente, em editoriais, suas preferências com relação a candidatos presidenciais. Qual é a opinião do senhor sobre esse posicionamento?

Azenha - É uma tradição do país. Isso não afeta o noticiário. Pelo menos os jornais que eu lia com mais freqüência, a maioria apoiava os democratas. Esse comportamento não é restrito à campanha presidencial. Já vi jornais apoiarem juízes, que nos Estados Unidos são eleitos.

JC - Com as facilidades da Internet, a mídia impressa e eletrônica correm risco no país que mais tem computadores domésticos no mundo?

Azenha - A afirmação de que o jornal seria extinto vem sendo derrotada seguidamente pela realidade. Primeiro foi dito que a TV iria acabar com o jornalismo impresso. Isso não aconteceu. Depois, seria a Internet. E até agora nada. Comentou-se, no passado, que a TV iria pôr fim no rádio. Essas previsões são prematuras. Só que, obviamente, as pessoas estão inundadas por informações na Internet. Nos Estados Unidos, eu abria o JC online para ler as notícias de Bauru. Eu acho que os jornais estão respondendo a isso com suas edições online. A Internet é um desafio para a qualidade dos jornais. Nos Estados Unidos, os jornais estão voltando a fazer reportagens, perfis de pessoas importantes, coisas que a Internet não oferece profundidade. O New York Times reforçou muito suas equipes de reportagens, os textos são longos, de três a quatro páginas, que é aquela coisa da profundidade.

JC - Na opinião do senhor, para onde o jornalismo caminha?

Azenha - Eu acho que vamos ter uma crescente mudança no perfil dos telejornais e também dos jornais impressos. O perfil que se tem hoje será afetado de forma mais profunda pela presença da Internet e das TVs a cabo também. Essas vão ocupar o espaço que a mídia tradicional tinha no passado, que é dar primeiro a informação. Eu, na TV a cabo, 24 horas, tenho notícias rápidas, ou na Internet. Acho que o jornalismo, numa tendência a longo prazo, será mais aprofundado. A TV Globo compete com ela mesma. A GloboNews dá as notícias que o Jornal Nacional daria à noite. Os telejornais serão forçados a se aprofundar um pouco mais, num formato que já existe nos Estados Unidos. Com certeza, não vão dedicar muito espaço a notícias rápidas, que serão esgotadas durante o dia. Vamos ter menos reportagens, mas elas serão mais profundas. Vai haver uma grande explosão de outros meios, como a telefonia celular. Já se tem nos Estados Unidos novelinhas de dez capítulos de um minuto de duração cada um. A NBC está desenvolvendo isso. A Globo terá isso no Brasil em breve. São novelas feitas para durar 20 minutos. Como se fosse uma história em quadrinhos. Você assina e recebe pelo celular. A Globo está desenvolvendo para o Brasil o sistema de notícias rápidas. Você receberá cinco vezes por dia no celular. Os grupos de mídia vão ter que entrar nisso. A telefonia celular será um novo território de disputa.

JC - Para encerrar, quais são os seus planos profissionais para os próximos anos? É intenção do senhor voltar a ser correspondente internacional?

Azenha - Tenho um contrato de três que terá de ser cumprido no Brasil. Sou repórter especial da TV Globo, em São Paulo. Tenho vários projetos para fazer o Globo Repórter. Estou trabalhando junto com a Globo.com para desenvolver o meu site (www. viomundo.com), com mais vídeos, buscando mais estudantes universitários. A médio prazo, com certeza a abertura de novos postos de trabalho fora do País. A Rede Globo vai crescer no exterior. A Globo Internacional tem uma participação crescente no mercado de TV a cabo nos Estados Unidos. Ela já tem 300 mil assinantes em todo o mundo. É uma área na qual estou bastante interessado, que é o desenvolvimento de novas mídias.