10 de julho de 2026
Cultura

Sobre mundos: Viver no inferno

Por Padre Beto | Especial para o JC
| Tempo de leitura: 4 min

Em um final de tarde, o rabino de uma pequena cidade fazia um passeio pelo campo quando encontrou um trabalhador a caminho de sua casa. O rabino cumprimentou o homem e imediatamente perguntou: “Para quem você trabalha?” O homem respondeu, mas surpreendeu o rabino devolvendo a pergunta: “E o senhor, para quem o senhor trabalha?” O rabino ficou um pouco sem palavras e respondeu: “Eu não trabalho para ninguém!”

Os dois caminharam juntos por algum tempo em um silêncio profundo até que o rabino perguntou ao homem: “Você não gostaria de trabalhar para mim?” “Claro, senhor rabino”, respondeu o homem, “mas o que eu deveria fazer?” “Simplesmente”, respondeu o rabino, “me lembrar para quem eu trabalho!”

No Evangelho de Mateus, Jesus dá um conselho a seus seguidores: “Não tenhais medo” e logo em seguida complementa: “Temei aquele que pode destruir a alma e o corpo no inferno!” Com sua nova interpretação da doutrina judaica, Jesus alerta seus seguidores do perigo da repressão física, porém os adverte para um perigo maior: a intimidação. Em um contexto social autoritário e repressor, a perigosa ameaça não está em perder a vida, mas aniquilar a alma.

Para Jesus, não existe a separação entre alma e corpo. A palavra alma é compreendida como a força que anima o corpo, ou seja, a vitalidade. Em outras palavras, matar a alma significa eliminar a subjetividade, a personalidade, retirando, assim, o que há de essencial: o sentido da própria vida. Se perdermos este, criamos em torno de nós mesmos - de nosso ser, de nosso corpo e alma - um inferno.

Sigmund Freud, o pai da psicanálise, afirma que nós, seres humanos, somos incapazes de viver a realidade sem mecanismos de escape. Como mecanismos de fuga, Freud cita a embriaguez, a fantasia e os vícios. Por mais que sejamos realizados em nossas vidas, a realidade possui uma grande falta de completude, por isso o ser humano necessita de mecanismos de escape para se afastar temporariamente de sua realidade e ganhar forças, recuperar a vitalidade, tendo condições de enfrentá-la novamente.

Por isso, sempre se faz necessário tomar aquela cervejinha com os amigos para se “esquecer” do cotidiano, voar um pouco em nossas fantasias através de um filme ou de um livro ou, até mesmo, se socorrer em algum vício de vez em quando. Quando tomamos uma cervejinha com os amigos, fazemos o exercício de nos retirarmos do cotidiano e nos afastarmos de nosso dia-a-dia. Quando vamos ao cinema ou acompanhamos os capítulos de uma novela na televisão, viajamos em uma fantasia e permanecemos distantes por algumas horas de nossa realidade.

Com certeza, qualquer vício torna-se uma “válvula de escape” para uma pequena pausa do “continuum” de nossa existência. Outra forma comum de mecanismo de fuga é a sensação de segurança ou de completude que podemos encontrar no relacionamento com outra pessoa. Quando outra pessoa se torna um mecanismo de escape, a chamamos de “o grande outro”. Na primeira infância, este grande outro para a criança é a mãe. No relacionamento com a mãe, a criança se afasta das frustrações e desafios que a realidade lhe traz e possui a sensação de ter recuperado a completude que possuía antes de nascer. Mais tarde, a mãe será substituída por outras pessoas: a família, o grupo de amigos ou a pessoa amada.

Se utilizar de forma consciente ou inconsciente de mecanismos de escape é uma necessidade para o ser humano e, a princípio, um remédio, mesmo que paliativo, para as frustrações da realidade. O problema é quando este remédio se torna um farmakon. Farmakon significa aqui o remédio que possui uma dosagem errada, transformando-se, portanto, em um veneno. O grande outro, ou qualquer outro mecanismo de escape, se torna um farmakon a partir do momento em que negamos nossa personalidade e criamos uma dependência em relação a este “medicamento”.

A partir do momento em que a relação com o outro passa a ser uma dependência, perdemos a vitalidade de sermos nós mesmos e por isso o próprio sentido da vida. O ser humano pode trocar a realidade por um mecanismo de escape que deveria ser somente temporário. A cervejinha se transforma, então, em alcoolismo; a vida da personagem da novela, o centro de nossas emoções e a opinião de uma pessoa ou do grupo ao qual pertencemos, o critério para nossas escolhas e atitudes. Principalmente quando deixamos com que o outro se torne o farmakon em nossa vida, perdemos a chance de ter, como afirma Hannah Arendt, a possibilidade do surgimento de algo novo. Ao anularmos nossa autenticidade por medo de não sermos aceitos pelo outro, perdemos a possibilidade de justificar a razão de termos nascido, destruímos nossa vitalidade, aniquilamos nossa alma e, o que é pior, a nossa existência se torna um inferno sem sentido. “Quando um homem não encontra a si mesmo, não encontra nada” (Goethe ).