09 de julho de 2026
Articulistas

Dessacralização (*) do PT


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É bastante conhecida, para quem estuda partidos políticos e sistemas partidários, a tendência ao deslocamento ideológico da esquerda para o centro, dos partidos progressistas quando assumem o poder. A realidade social, com suas vicissitudes, atua contra os desejos de quem governa. Esta tem o poder de dissolver aquela visão idealizada da política e seus destinos.

A estratégia, para quem está no poder, é governar encarando de frente este novo e ameaçador ambiente, procurando materializar com efetividade as políticas públicas apresentadas na campanha, sem se afastar do eixo ético - ideológico que fundou o partido. Governar, garantindo sua identidade, mesmo diante da necessidade de estabelecer alianças e coalizões com outros partidos, é um imperativo para qualquer partido estruturalmente consolidado.

A identidade do PT tem sido construída ao longo dos anos como a de um partido imune às práticas fisiológicas, inaceitáveis em uma democracia minimamente consolidada. O PT que teve sua origem na fusão do movimento sindical com intelectuais de esquerda no início nos anos 80, tem conseguido canalizar, ao longo do tempo, os anseios e esperanças daqueles que insistem em colocar na agenda política da Nação a construção de uma realidade social com maior distribuição de justiça e de riqueza.

As recentes denúncias (provas) de corrupção (Valdomiro, Correios e os execráveis Robertos Jeffersons ) e o comportamento fisiológico dos dirigentes do partido contra a CPI dos Correios é a ponta de um iceberg que demonstra como o exercício do poder deslocou, de forma irreversível, o PT dentro do espectro ideológico para um setor mais conservador, o que era previsível. O maior prejuízo, entretanto, é reconhecer que tal prática feriu mortalmente sua história e sua identidade, principal patrimônio político que o distinguia de todos os outros partidos.

Aí reside a tragédia para o PT, mas, paradoxalmente pode representar um ganho para a sociedade. Para o militante e o intelectual que ainda alimentam o seu cotidiano com doses diárias de utopias e idealismos, isso representa uma tragédia. Tragédia no sentido do abandono, da perda de algo que lhes nutria a existência. Entretanto, para a sociedade civil, essa dessacralização do PT tem como conseqüência um razoável salto de qualidade na sua relação com a classe política, forçando-a a conviver com a verdade efetiva das coisas (Maquiavel).

A verdade é que esta relação é fundada na dominação de uma sobre a outra, a classe política sobre a sociedade civil. São entidades que têm suas existências estruturalmente fundadas uma na outra. Os partidos políticos representam, em sua essência, o principal instrumento legal de reprodução desta dominação. Neste cenário, marcado por certo mal estar indissolúvel, posto que não se pode abrir mão das instituições políticas em uma democracia, quanto mais mitos forem destruídos mais sólida e moderna será a base desta relação.

O autor, João Rego, é psicanalista, mestre em ciência política, membro do Traço Freudiano Veredas Lacanianas Escola de Psicanálise.

* Esta expressão é de Valentino Gerratana, em “Lênin e a dessacralização do Estado”, Roma, Edição Riuniti, 1972.