08 de julho de 2026
Geral

Madeireiras enfrentam crise e preço sobe

Rose Araujo
| Tempo de leitura: 4 min

As madeireiras de Bauru estão passando por uma crise sem precedentes. Sem produtos para vender, algumas já falam que correm o risco de fechar as portas. Para o consumidor, o reflexo disso tem sido o aumento de preços que, em determinadas revendedoras, já chegou a 20%.

A causa dessa turbulência foi a “Operação Curupira”, desencadeada no mês passado no Estado de Mato Grosso, pela Polícia Federal (PF). A ação teve como meta desmantelar uma quadrilha que cometia crime ambiental no Estado. Foram presas mais de 80 pessoas, muitas delas funcionários do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) (leia mais abaixo).

Entre as fraudes cometidas por esses servidores estava a venda, para empresas fantasmas, de Autorizações para Transporte de Produtos Florestais (ATPF), documento que permite o tráfego de madeira pelo Brasil.

Depois da operação, o Ibama suspendeu por 30 dias a emissão da guia, fazendo com que os madeireiros daquele Estado ficassem impedidos de comercializar o produto. O problema atingiu em cheio Bauru, que tem no Estado vizinho seu grande fornecedor.

O proprietário de um estabelecimento do ramo, Renato Keller Seco, diz que seu estoque já foi reduzido em 60% desde que a crise no setor começou. “Tenho que ter um cuidado grande ao vender, pois não sei se vou conseguir entregar o pedido para o cliente”, destaca.

Ele diz que em um mês deixou de receber quatro remessas de madeira do Mato Grosso por conta da suspensão das ATPFs. “Nós não temos culpa das coisas erradas que aconteceram por lá. Deveriam liberar as entregas”, destaca Seco.

Preços alterados

O proprietário de outro depósito de madeira de Bauru, que preferiu não se identificar, alertou para o risco de fechamento de empresas do ramo. “Tem muita gente que não vai conseguir segurar essa crise e vai acabar fechando as portas”, comenta.

Ele diz que ainda não foi tão atingido porque tinha um estoque bem maior. “Mas, se demorar muito para regularizar essa situação, o negócio vai complicar”, frisa.

Por conta dessa falta de produto, os preços da madeira estão em elevação na cidade. De acordo com o empresário, eles já subiram cerca de 20%.

Seco confirma que o mercado está bastante indefinido e confuso. “A gente nem sabe direito como vão ficar os valores das peças daqui para a frente”, destaca.

Liberação

O analista ambiental do Ibama de Cuiabá, Márcio Costa, afirma que o órgão voltou a emitir as ATPFs na cidade de Sinop, no interior do Estado, uma das grandes fornecedoras de madeira de Mato Grosso. “Foram fechadas diversas empresas clandestinas, mas as que estão regulares já podem realizar o transporte do material”, afirma.

O representante comercial Agnaldo Nunes Correia, que mora em Sinop e presta serviços para um depósito de madeiras de Bauru, diz que as coisas não estão tão são assim.

De acordo com ele, o Ibama está fazendo várias exigências para liberar os produtos, o que dificulta a comercialização. “Eles (Ibama) tinham de dar um prazo para o pessoal se adequar a essas novas normas. E, enquanto isso ocorresse, deveriam liberar as entregas, pois muitas firmas estão com os pátios cheios sem poder vender”, salienta.

Correia acredita que apenas 10% das madeireiras de Sinop conseguirão se adequar aos novos procedimentos, o que vai continuar emperrando a venda do produto para o Estado de São Paulo. “As entregas não vão ser normalizadas rapidamente. Vai levar um bom tempo para isso acontecer”, prevê.

A situação na cidade matogrossense, segundo o representante comercial, está um caos. “Muita gente já perdeu o emprego e os empresários que agiam de forma correta estão sendo tachados de ‘bandidos’”, reclama.

Na opinião dele, em vez de ter suspendido de vez a emissão de autorizações, o Ibama devia ter feito uma conscientização com os madeireiros da região, mostrando o perigo do desmatamento desmedido. “O erro foi do próprio instituto, que não fez a fiscalização como deveria e ainda teve funcionários envolvidos nos golpes”, destaca.

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Entenda o caso

No começo de junho, policiais federais desencadearam a Operação Curupira no Estado de Mato Grosso, com o intuito de desmantelar uma quadrilha especializada em crimes ambientais.

Formado por empresários do ramo madeireiro, despachantes e funcionários do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), o grupo agia há 14 anos no País, explorando os recursos naturais de maneira clandestina e criminosa.

Entre as fraudes cometidas pelo bando, estava a venda de Autorizações para Transporte de Produtos Florestais (ATPFs) para empresas fantasmas. Essas guias servem para o Ibama atestar a procedência da madeira e o seu transporte.

Mais de 80 pessoas foram presas e o instituto decidiu suspender por 30 dias a emissão das autorizações, visando normalizar o setor madeireiro.