09 de julho de 2026
Geral

Entrevista da Semana - Arquiteto defende cidades democráticas

Ricardo Santana
| Tempo de leitura: 12 min

O arquiteto Paulo Mendes da Rocha defende a adoção de conceitos já muito conhecidos, porém ignorados, para a valorização da cidade enquanto espaço para todos. Derivando sua reflexão da arte da arquitetura, Rocha alinhava os interesses econômicos e políticos com as necessidades humanas. “A cidade é fundamentalmente uma questão política”, afirma.

Ele esteve em Bauru na última semana, quando falou para uma platéia estimada de 300 arquitetos sobre “Arquitetura contemporânea brasileira: principais obras”. Em sua visita à cidade ele foi acompanhado pelo presidente do Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB) em São Paulo, Paulo Sophia, a convite do núcleo Bauru do IAB, Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura (Crea) e Associação dos Engenheiros, Arquitetos e Agrônomos do Estado de São Paulo (Assenag).

Na ocasião, o arquiteto Jurandyr Bueno Filho manifestou sua preocupação com a intensa criação de condomínios residenciais fechados que descaracterizam a cidade de Bauru. “Os bairros novos estão virando verdadeiros guetos por uma questão de violência. Você anda e vê 500 metros de muro de um lado e 500 do outro. A cidade está virando um feudo com muros altos. Tem setores em Bauru que estão avançando com tantos condomínios fechados que você anda quilômetros sem ver nenhuma casa. Só se vê muro. A cidade está se fechando, segregando bairros. Isso provoca um novo desenho da cidade absolutamente estranho”, critica.

Atrelado a este problema, o presidente do núcleo bauruense do IAB, Wagner Domingos, questionou Rocha sobre a possível intervenção pelo Plano Diretor.

Leia a seguir os principais trechos da entrevista concedida por Rocha ao Jornal da Cidade.

Jornal da Cidade - Que visão o senhor tem de casa? Paulo Mendes da Rocha - Hoje não existe mais propriamente a idéia de projeto de casa. O que interessa hoje são as habitações. A graça é ver o que você acha disso. O grande valor de uma casa é um endereço. Se eu disser para você que eu moro no Leblon (Rio de Janeiro), já é invejável. Não preciso dizer se a casa é assim ou assado. Então, existe uma forma de poder morar lá.

JC - Que conceito o senhor aplica a projetos de escritórios? Rocha - Há uma tendência hoje, que na minha opinião é errada, de mascarar uma coisa para fingir que é outra. Por exemplo, a idéia de vir ao jornal para que eu possa gozar esse momento, que é raro para nós. Você emboneca tudo como se fosse a lanchonete de um hotel. Disfarça com plantinhas e eu acabo não vendo o que seria de fato uma redação de jornal. Ou seja, abole a perspectiva de invenção de novos espaços. Você abdica da veracidade das coisas que são justamente a novidade. É como se você imaginasse uma companhia aérea que para atrair fregueses anunciasse viagem em um avião colonial brasileiro. O avião cai. Então, entre funcionalidade e beleza existe a questão da emoção. Eu quero ir ao jornal. Não quero que aquilo pareça uma igrejinha, ou uma casinha, ou uma lanchonete. Isso não se tem muita coragem de fazer. Você tem medo da veracidade da coisa que é um pouco diferente da idéia de funcional. É a beleza das invenções humanas, daquilo que aparece e não havia antes. Nós passamos pela área de sistemas e aquilo tudo tem cara de jornal. Essa sala (de visitas) não tem. Podia ser uma estação rodoviária, a entrada de um hotel. É muito requintado, agradável, mas tem que ter cara de jornal.

JC - Como o senhor avalia a predominância na paisagem urbana dos condomínios fechados, que se justificam contra a violência urbana mas desintegram as relações humanas? Rocha - É um desastre imenso. Pior é o desenho das pessoas. A esperança é a revolução dos jovens. Eles têm que pular o muro como presidiários. A esperança é que a vida fora dos muros se torne de tal maneira invejável que os meninos comecem a pular o muro e a escapar desses presídios. Os jovens não vão ficar atrás do muro. Você vai ver “teresas” feitas de lençóis e os meninos pulando o muro para ir brincar na cidade real dos que têm coragem. Porque não tem futuro essa perspectiva. É uma perspectiva amarga. Acontece no mundo inteiro mais ou menos coisas assim. É o abandono daquilo que era a matriz da cidade. É uma verdadeira tragédia porque desmoraliza a inteligência de uma maneira geral quando se chama artistas e arquitetos para revitalizar a cidade, aquela que está morta porque foi abandonada. Nós não temos condições de revitalizar uma cidade, não há arquitetura que possa revitalizar uma cidade. A idéia de cidade é feita pela vida ativa das pessoas e é isso que encanta a cidade. Há uma tendência de degenerar tudo.

JC - O que é imprescindível em um Plano Diretor para solucionar problemas urbanísticos? Rocha - De um modo geral, hoje em todas as cidades do mundo a grande questão é o transporte público. A grande questão da nossa vida é o tempo livre. Não temos que ter aflição para voltar para casa depois do trabalho. O transporte público é a chave de uma cidade feliz, porque você toma mais uma cerveja com seu amigo no bar sabendo que daqui a cinco minutos tem outro trem ou ônibus. Você anima bares, conversas, convivências, cinemas e teatros com a tranqüilidade das pessoas. O transporte público é a essência da questão urbana e principalmente o intermunicipal. Acho que a revitalização das ferrovias com um intrincado sistema que favoreça este sistema é fundamental. Porque a partir disso, você pode estruturar o desenvolvimento da cidade. A questão da habitação é fundamental e tem que se imaginar uma cidade para todos. Tem que desmistificar essa questão de casa pobre e casa rica. A casa contemporânea não é uma questão de estilo. É uma questão de êxito da técnica. Se aliar sistema de esgoto, água, luz elétrica, telefone e transporte na porta, toda casa tem o mesmo valor. Você não consegue fazer uma latrina de segunda categoria, você não consegue oferecer quilowatts para pobre. Você não pode fazer avião de segunda classe, que cai mais do que o outro. Isso não faz sentido e também não pode fazer telefone que fala mal. Portanto, isso é um mito que vem da maldade histórica do próprio homem explorar o homem. Então, se estabelece essas categorias de quem é pobre e quem é rico. O conhecimento é patrimônio universal e não pode ser de ninguém em particular. Nós estamos vivendo à luz da beleza do conhecimento explícito nas formas e nos usos das coisas materiais.

JC - Bauru não mostra sinais de que pretende retomar a ferrovia? Rocha - Nós estamos dormindo no ponto porque, evidentemente, sozinha uma cidade não pode executar essa espacialidade indispensável para que se expanda a vida humana. O traçado da ferrovia vale uma fortuna e, portanto, o maior investimento e mais caro já foi feito, que é procurar no território uma topografia compatível com a ferrovia. Agora, a grande questão não só de Bauru como das cidades da região, do ponto de vista da ação política e dos urbanistas e arquitetos, é restaurar e revitalizar as ferrovias. É você ligar várias cidades de modo confortável e cômodo como o desses trens que você vê pelo mundo inteiro, com velocidade de 200 a 300 km/h. Se você associar um transporte desse tipo além do transporte mais amplo para cargas, pode criar verdadeiras estruturas de caráter metropolitano produtivas e capazes de amparar o trabalho humano, com universidades, centros médicos, especialidades de cada uma delas. Você vai ver que a questão da natureza, do meio ambiente, se resolve concentrando cidades e ligando cidades com cidades. Você pode morar em uma cidade e trabalhar em outra. Costura-se de novo o território de forma moderna. Outra coisa aborrecida é se imaginar que cada cidadezinha tenha que ter duas, três faculdades de arquitetura. É melhor concentrar algumas do ponto de vista regional que possam ser excelentes. Você toma um trem e em meia hora está na escola, centros médicos e em centros de pesquisa. Precisa ver a questão da América Latina nesse olhar. Nós abandonamos a possibilidade de construir a paz com projetos solidários entre países. Há muitas linhas de trem que ligam o (oceano) Atlântico ao Pacífico. Estamos até hoje condenados ao canal do Panamá e ao estreito de Magalhães. Na Europa, os Alpes são atravessados por centenas de túneis ferroviários. Atravessar os Andes é coisa facílima de se fazer para colocar as mercadorias tanto no Pacífico, onde está hoje a riqueza do mundo nos países asiáticos, quanto no Atlântico. Isso nos obrigaria a uma solidariedade absoluta com trabalhos feitos em parceria com Peru, Bolívia, Chile, Argentina e Uruguai.

JC - Como o senhor vê a tendência atual de as pessoas buscarem projetos arquitetônicos funcionais? Rocha - Essa questão é fundamental, mas a estrita funcionalidade geralmente não satisfaz os homens. Faltam fatores como a beleza. O funcional você mede se funciona ou não. Fica a parte não mensurável dos prazeres da vida. Temos uma visão erótica da vida e a simples funcionalidade não resolve.

JC - Por que museus e espaços de arte marcam sua atuação? Rocha - Para todos nós, o museu, por excelência, é a própria cidade e a vida cotidiana. Agora aparece em todas as cidades a idéia de um museu de ciências para crianças, assim como antigamente um menino da roça era muito hábil para cortar madeira e fazer um estilingue. Se o menino hoje olhasse e compreendesse que o elevador está subindo e descendo contra a força da gravidade e não funciona se não for um prumo perfeito, conheceria tudo e teria consciência do “museu” em que vive. Portanto, não se goza essas coisas e quer trancar em lugar fechado uma exibição que às vezes é estonteante. Você entra e aquilo mexe sozinho. Uma visão falsa do conhecimento que não é para os engenhos humanos causarem espanto, e sim desvendarem a simplicidade das coisas do mundo.

JC - Comente sua intervenção na recuperação do prédio da Pinacoteca do Estado, que após reformada ganhou nova visibilidade na região do bairro da Luz, em São Paulo. Rocha - Fundamentalmente, seria bom lembrar que se aquilo está lá, a questão primeira que surge como capaz de realizar aquilo é a vontade política. Portanto, os dirigentes daquilo tudo, o Emanuel Araújo (diretor da Pinacoteca na época da recuperação), o Ricardo Otake, que era secretário estadual da Cultura, que mostram que se não tiver uma clareza de horizontes e compreenderem a importância daquilo historicamente não há o que se possa fazer. A partir daí você pode dizer que qualquer arquiteto tenha competência para fazer aquilo. É muito delicado o edifício porque é mal feito. A construção não é uma construção extraordinária. Do ponto de vista da memória é exemplar, porque é memória das asneiras que fazíamos em 1900. Já havia uma arquitetura muito mais inteligente do que tudo aquilo, como a de Vitor Horta. Nós, por sermos o que somos, um País colonial, tínhamos que copiar esses palácios que para nós são plantas paladianas. São pavilhões com pátios internos, uma rotunda central e uma torre. Aquilo já era feito tudo de tijolo com argamassa e no caso da Pinacoteca não estava acabada.

A grande monumentalidade é surpreender essa questão de como para nós aquilo tinha sido importante. Uma necessidade de País que está começando e não compreende a novidade que possa ser no universo, há 500 anos, a descoberta da América. Tocar aquilo (prédio da Pinacoteca) para que pudesse ser freqüentado energicamente, pois há dias que vão lá cerca de 10 mil pessoas. Imaginei algumas peças metálicas parafusadas no que havia lá e em não tocar no que estava lá. Tudo para produzir uma transformação espacial capaz de você visitar aquilo como uma coisa até certo ponto estranha. Você não percorre mais as plantas. Você atravessa o que era vazio: os pátios. Por outro lado, os pátios são inconvenientes para um museu, porque são dois buracões de três andares, onde chove, junta umidade. Nós cubrimos com cristal e arrancamos as janelas. Você vê os quartos que está na quinta sala. Demos uma nova entrada ao prédio porque onde havia a escadaria tornou-se horrível pelo tráfego intenso. São 20 linhas de ônibus e alargaram a avenida, o que espremeu a escada.

O outro lado era extremamente agradável e acolhedor, porque vira-se para a Estação da Luz, ao lado do Jardim da Luz. O edifício possui na entrada uma grande varanda. Das cinco portas que haviam, entra pela do meio e as outras foram substituídas sem mexer nas guarnições. É uma visão estratégica da espacialidade, e não uma questão de estilo. O êxito do resultado faz com que você diga que isso é bonito. Ninguém sabe o que é bonito porque o bonito aparece depois.

JC - Como o senhor avalia o impacto da indústria do turismo nas cidades? Rocha - Os hotéis se padronizam tanto que você não sabe mais onde está de fato. Tornou-se um engodo a tal viagem turística organizada por comitivas imensas. A origem do turismo é você ir a algum lugar e invejar a vida daquele lugar e surpreender a vida comum gozando um pouco daquilo. Seja comida, a convivência, os bares de calçada. Você organiza aquele turismo de massa e invade tudo aquilo. Várias vezes fui a Paris e freqüento aquele bar, o Les Deux Magots, que é um ponto turístico. Estava tomando um uísque na calçada e encostou um ônibus imenso desses de vidro fumê. Vejo que lá dentro tem gente em pé contra a janela e alguém explicando. Era um ônibus de turistas japoneses que nem ia abrir a porta e estavam mostrando o Deux Magots. Minha reação um pouco humorística foi de fazer uma pose para que eles não se decepcionassem, como se eu fosse um daqueles franceses. É uma coisa ridícula você trancado dentro de um ônibus e alguém apontando: “Esse é o Deux Magots”. Eu seria o turista ideal, confundido com todos. E eles olhando aquilo como se fosse uma jaula. A Monalisa (obra de Leonardo Da Vinci) teve que ser protegida com filtros especiais e depois passou até a ser proibida a visitação porque estava sendo fotografada com muita intensidade, com flashes cujo jato de luz deteriora a pintura. É uma coisa grotesca. É tão interessante essa capacidade do homem de destruir por uma visão mercantilista exacerbada no uso daquilo que, justamente, ele dizia que gostava.