08 de julho de 2026
Bairros

Obras 'com febre'

Sérgio Pais
| Tempo de leitura: 4 min

Quando uma mãe percebe o menor sinal de febre em seu filho, a primeira providência prudente é procurar um médico para saber qual a razão daquele “sinal” de que algo não vai bem com a saúde da criança. O mesmo deveria ser feito quando um viaduto, por exemplo, começasse apresentar sinais de “febre”.

A comparação, aparentemente surreal, começa a ser levada mais a sério pelos estudiosos da engenharia, que nos últimos anos têm se aprofundado num ramo de conhecimento chamado “Patologia das Construções”, cujos princípios vêm sendo apresentados, de forma inédita, em um curso ministrado em Bauru.

Segundo definição do professor Cláudio Vidrih Ferreira, docente da Faculdade de Engenharia Civil da Universidade Estadual Paulista (Unesp-Bauru), a ciência conhecida como Patologia das Construções é, na prática, uma interface da engenharia com a medicina que trata as obras e edificações como “pacientes” que, por diversos motivos, podem ficar “doentes”.

Aproveitando o ineditismo do curso na cidade, o JC nos Bairros convidou Ferreira, coordenador do curso de pós-graduação que acontece na Unesp, e seu colega de universidade Adílson Renófio, também engenheiro civil, para uma espécie de “consulta médica” a algumas das principais obras da cidade. No total, os profissionais visitaram e avaliaram, “visual e superficialmente”, oito viadutos.

Ferreira e Renófio destacam, com ênfase, que a experiência não pode ser tomada como uma avaliação aprofundada dos casos visitados. “Fizemos apenas uma análise visual e, só com isso, é impossível a elaboração de um diagnóstico preciso. Para tal, precisaríamos elaborar um programa de avaliação, colher amostras de materiais, submetê-los a testes e ensaios, além de fazer um estudo minucioso do projeto original”, ressalta Renófio.

Mesmo assim, os estudiosos encontraram indicações evidentes de que muitas das obras de infra-estrutura da cidade já apresentam sinais de “manifestações patológicas”, causadas por fatores variados, que indicariam a necessidade de uma “terapia curativa” - a experiência limitou-se a alguns viadutos.

“Patologia em Construção é um ramo da engenharia que visa justamente detectar a possível existência de falhas ou anomalias já manifestadas ou que ainda não se manifestaram, na tentativa de buscar soluções para garantir a qualidade do desempenho da obra”, reforça Renófio.

Tipos de doença

Ferreira explica que as patologias em construções, como nos seres humanos, podem ser congênitas, por falta de cuidados e por “velhice” - há também “doenças” causadas por falhas na execução. “Para a engenharia, um mal congênito é causado por problemas de projeto, quando precocemente uma obra começa a apresentar anomalias que exigem intervenção”, compara.

O professor explica ainda que outras manifestações patológicas ocorrem pelo esgotamento da vida útil da obra. “O homem, quando envelhece, também fica mais suscetível a contrair alguma doença”, diz Ferreira.

E, ainda aproveitando a interface entre engenharia e medicina, Ferreira explica que as obras também dão sinais de que não estão bem. “Fissuras, trincas ou rachaduras em edificações são manifestações similares a uma febre no ser humano. Em ambos os casos, o ‘paciente’ precisa passar por exames e ficar em observação para que o respectivo profissional da área possa verificar algum sintoma que favoreça o diagnóstico”, detalha.

E, assim como a medicina, a engenharia também não descarta medidas drásticas para situações limites. “Às vezes, uma obra apresenta manifestações patológicas tão graves que, diante da inviabilidade econômica de sua recuperação, a saída é a ‘eutanásia’, que no nosso caso equivale à demolição ou implosão”, diz o professor.

Manutenção indispensável

Como a avaliação feita pelos professores foi apenas visual e superficial, eles não fazem qualquer diagnóstico conclusivo sobre os eventuais problemas encontrados. Mas ambos concordam que toda obra precisa de manutenção. “A cultura da manutenção ainda é precária no nosso País, mas isso lentamente está mudando. E vai mudar porque é uma necessidade premente, até em face do alto custo de investimento em obras novas”, diz Ferreira.

O professor credita esta postura leniente com relação à manutenção do patrimônio já construído a um “problema cultural”. “O administrador público muitas vezes prefere investir numa nova obra a manter o que outro político fez, até porque isso não traz dividendos políticos e eleitorais”, arrisca.

Neste sentido, Ferreira elogia a iniciativa de um estudo apresentado no mês passado em São Paulo que aponta uma série de obras de infra-estrutura da Capital que estariam com seu prazo de validade vencido, principalmente por falta de cuidados. “O trabalho é válido por despertar a cultura da manutenção”, diz.

Ferreira ressalta outro aspecto positivo do levantamento. “Fica evidente que, apesar de as obras possuírem um ‘prazo de validade’, é possível intervir no processo e recompor o seu desempenho, ou seja, oferecer uma sobrevida à edificação”, diz, lembrando que, em países europeus, a engenharia consegue isso adequando uma obra milenar às suas novas utilizações.