08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

República e memória


| Tempo de leitura: 3 min

A República, da proclamação até hoje, passa por crises políticas que constituem desafios a serem enfrentados se queremos o seu aperfeiçoamento. É tarefa difícil que cabe aos partidos, às instituições da sociedade de modo geral e a nós cidadãos. Eleitores ou não.

O sistema republicano, no Brasil, nasceu de episódio militar sem a participação do povo, que tomou conhecimento “bestificado”, segundo palavras do historiador. Foi uma ruptura política promovida pelos “de cima”, sem povo. Várias crises marcaram a evolução republicana e a representação política baseava-se no voto censitário. Só os ricos proprietários votavam. Verdadeira aristocracia. Na República Velha vigorava a política dos coronéis que exerciam o poder pelo “voto de cabresto” ou voto “bico de pena”. Até os mortos votavam. Corrompia-se o eleitor e o processo eleitoral. O povo, mera massa de manobra.

Na ditadura Vargas, não obstante o avanço da legislação social e trabalhista, o amordaçamento sindical gerou seu filho espúrio: o pelego. Deterioram-se as relações Trabalho e Capital. Atentados políticos, crise profunda e mar de lama. Em agosto de 1954, o suicídio de Vargas.

Na década de 60, com Jânio Quadros, nova crise. Agora na esteira do populismo moralista e demagógico que culmina no episódio das “forças ocultas” e da renúncia. O país mergulha no artifício do Parlamentarismo, manobra que impede o governo Jango de realizar o programa das Reformas de Base.

1964. Golpe de Estado. Grave crise. Ditadura militar e República da Espada. Exílio, censura, cassações, tortura, prisão e morte para quem resistisse. As vanguardas políticas, intelectuais, estudantis, sindicais e trabalhadoras optaram pela luta armada no enfrentamento desigual ao arbítrio. Massacre devastador. Foi o “combate nas trevas”, segundo o historiador Jacob Gorender. Este é capítulo sangrento a ser desvendado e escrito em sua plenitude. Muitos historiadores, pesquisadores e jornalistas se ocupam desse doloroso momento da nossa História.

A era Collor, maior farsa da República contemporânea, teve o remédio do “impeachment” e o merecido ostracismo.

É nesse quadro que surge o PT, fins da década de 70 e início de 80. As camadas polulares, pela primeira vez na história, após a rica experiência do Partidão, entra na cena política participando da construção de seu partido. O PT nasce nos sindicados, no fundo da oficina, na capelinha da beira da estrada, na Universidade, nos campos, nas favelas, nos cortiços, atingindo 840 mil filiados. Organizado no país inteiro elege vereadores, prefeitos, deputados, governadores e, coroando o processo de acumulação de forças, chega ao poder federal. Com Lula inicia-se a República popular, um processo desafiador e difícil de ser consolidado, como assistimos neste momento. Resistir é preciso.

Diante da crise que se abate sobre o partido e o governo, os militantes e a sociedade brasileira têm a certeza que as instâncias partidárias e as instituições brasileiras possuem instrumentos capazes de superar as dificuldades e garantir o avanço e a reafirmação do governo Lula em busca da sociedade que queremos, “economicamente justa, socialmente solidária, culturalmente plural e politicamente democrática”. Dêem à esta sociedade o nome que bem entenderem, capitalista e neo-liberal é que não será. Por isso, é preciso retomar o processo de acumulação de forças. A luta continua... (Isaias Daibem - RG 5.250.303)