De minha parte, com esse texto, pretendo não mais ocupar espaço nessa coluna para polemizar com o leitor Roberto Di Ruzze acerca do período da ditadura militar, pois trata-se, visivelmente, de um debate estéril e interditado. Antes, porém, reafirmo todas as críticas que fiz.
Volto a dizer que no período ditatorial vivíamos sob forte censura. Com isso, qualquer fato que manchasse o governo militar não era divulgado. Para exemplificar o que afirmo, reproduzo duas questões arguidas em sua carta e a mim direcionadas: “Lembra-se da reportagem recente na televisão, que mostrou dezenas de crianças indígenas no Mato Grosso estão (sic) morrendo de fome no colo das mães e a comida se estragando nos depósitos da Funai ali pertinho? Lembra-se daquela senhora do Nordeste que morreu de inanição em plena distribuição do “mensalinho†Fome Zero, que foi desviado para os amigos dos governinhos democráticos da região?†Respondo: na ditadura, jamais a população saberia desses fatos. Não seriam divulgados. Ou será que alguém acredita que sob a batuta dos militares crianças não morreram de fome, que não havia desvios de verbas públicas, etc. É ingenuidade, no mínimo, crer que não.
Ressalto ainda que não legitimo o atual estado de coisas. Não acho que vivemos sob uma democracia real. Ao contrário. Há uma ditadura do poder econômico. Contudo, ao mesmo tempo, não vou valorizar uma época terrível como a do regime militar. Lembre-se: havia muita corrupção, muitos desmandos e muita distribuição de cargos para apadrinhados. Assim como hoje. Ressalto também que os militares não tinham programa de desenvolvimento para o país. Causando endividamento externo crescente e concentração de renda, eles seguiam cegamente as normas ditadas por Washington. Afinal de contas, todos os golpes militares praticados na América Latina foram arquitetados pelos EUA. A CIA era a grande articuladora deles. Então, sequer nacionalismo autêntico existia.
Por fim, destaco uma passagem da canção “Vai passarâ€, de Chico Buarque e Francis Hime, para corroborar o que digo sobre as mazelas do regime militar, pouco visíveis para a maioria dos brasileiros no período: “...Num tempo / Página infeliz da nossa história / Passagem desbotada na memória / Das nossas novas gerações / Dormia / A nossa pátria mãe tão distraída / Sem perceber que era subtraída / Em tenebrosas transações...â€. (Marcos Silvestre - jornalista e diretor do Sindicato dos Bancários de Bauru e Região)